Dentro da Caixa: Uma espiadinha no escritório supercriativo do arquiteto Maurício Melara

Um bate-papo sobre trabalho e diversão num dos escritórios mais legais da cidade

10 de setembro de 2018 - Por: Redação

Foto: Celso Pilati

Foto: Celso Pilati

 

Ele gosta de buscar outro ângulo, simplificar o traço, ir além do que a maioria está fazendo. É obcecado por descrever os detalhes e ressalta que esse é o DNA do seu escritório – que já tem 27 anos. “O que a gente não decide, alguém vai decidir”.

Com uma clareza imensa do que pode ou quer oferecer aos clientes, Maurício Melara é um dos arquitetos mais respeitados da atualidade em Curitiba. Em projetos residenciais, comerciais, retrofits, ele integra técnica e sua história de vida para oferecer as melhores experiências.

Fomos recebidos no seu escritório, sem dúvida um dos espaços mais interessantes da cidade, para um café e uma conversa sobre vida e arquitetura.

 

Foto: Pablo Contreras

Foto: Pablo Contreras

 

 

VAMOS COMEÇAR FALANDO DESSE ESCRITÓRIO INCRÍVEL. DE ONDE SURGIU A IDEIA?

Tudo começou com a necessidade de termos um estacionamento. Subsolo envolve deslocamento de terra e uma estrutura de contenção cara. Então eu aboli essa ideia e fizemos o estacionamento no térreo. Aí a legislação permitia que se chegasse até 10 metros de altura e foi o que fizemos. Estamos no terceiro andar sem ter o primeiro e o segundo. Como estamos no nível da copa das árvores, o visual fica agradável.
QUAL FOI O MAIOR DESAFIO?

O grande desafio de projetar para si mesmo é conciliar a criatividade com o orçamento. As possibilidades e o conhecimento te levam a vários caminhos. As decisões são mais rápidas e isso pode te induzir ao erro. O contraponto cliente-arquiteto é a maneira de trabalhar que estamos acostumados, quando você está nos dois lados da mesa tudo fica diferente.

 

Foto: Pablo Contreras

Paredes leves de drywall e o mobiliário feito de materiais reutilizados permitem flexibilidade na ocupação, que tem 144m2 de área total edificada. Foto: Pablo Contreras

 

E COMO EQUILIBROU OS CUSTOS?

Foquei em conseguir um resultado harmônico, inusitado e que transmitisse nossa identidade, mas que
ao mesmo tempo não extrapolasse o orçamento previsto. Todo mundo acha que gastamos uma fortuna, mas não, é o contrário. E acho que esse é o grande desafio de uma boa arquitetura, você conseguir com criatividade uma solução técnica elevada e com um custo que não seja um absurdo. Até porque com budget livre fica fácil.

 

UMA QUESTÃO POLÊMICA… VOCÊ É CONHECIDO POR NÃO ACEITAR A RT, RESERVA TÉCNICA, POR ESPECIFICAÇÃO. POR QUÊ?

Para mim essa é uma questão básica. Ter uma relação clara com o cliente. Eu presto o serviço, o cliente paga por esse serviço. Uma parte desse serviço é especificar materiais, indicar bons fornecedores. Ter a liberdade de chegar para um fornecedor que fez um trabalho que não esteja adequado e apontar os defeitos sem constrangimentos. Não existe mais espaço para quem pensa diferente.

 

A ligação entre os níveis foi feita por um elevador industrial e escadarias com paredes de policarbonato translúcido, que podem ser usadas como galeria de exposição. Foto: Celso Pilati

A ligação entre os níveis foi feita por um elevador industrial e escadarias com paredes de
policarbonato translúcido, que podem ser usadas como galeria de exposição. Foto: Celso Pilati

 

VOCÊ ACREDITA QUE HÁ CONFLITO DE INTERESSES?

Com certeza. Porque a qualidade da especificação pode ficar comprometida quando há interesse financeiro envolvido. O arquiteto não pode se colocar na posição de vendedor, isso desvaloriza a profissão, expõe o fornecedor e é desonesto com o cliente. Ninguém ganha.

 

Foto: Pablo Contreras

Foto: Pablo Contreras

MAS PARA QUEM ESTÁ COMEÇANDO É MAIS DIFÍCIL, NÃO?

Sim, entendo que o mercado é dif ícil, principalmente para quem está começando, é complicado conseguir se posicionar, mas é uma questão conceitual e ética, de política interna. No começo da carreira, as RTs podem significar uma diferença nos ganhos do escritório, mas depois de 27 anos de trabalho posso dizer que compensa ser,transparente. Porque a transparência é um ponto valorizado pelo cliente.

 

HÁ OUTRA SOLUÇÃO?

Cobrar o valor justo é fundamental para o bom relacionamento cliente-escritório. Se existir algum acordo de comissionamento, deve ser pré-combinado. É mais saudável o próprio cliente pagar e não o fornecedor. Essa é a solução mais certa porque não cria vínculo financeiro do profissional com o fornecedor, o que deixa o arquiteto numa condição muito mais livre para exigir qualidade. O cliente tem que saber o que está realmente pagando. RT é ruim para o cliente, para o arquiteto e para o fornecedor. É ruim para todo mundo.

 

O QUE É QUALIDADE QUANDO SE FALA EM ARQUITETURA?

Às vezes não é algo novo, grande, inusitado, mas, sim, um detalhe que faz com que elementos simples, como uma porta por exemplo ganhem outra dimensão e importância dentro do projeto. A gente detalha no extremo o que faz o produto final ter uma personalidade diferente, gerando uma qualidade superior.

 

A mesa foi construída pelo arquiteto com materiais reutilizados. Foto: Pablo Contreras

A mesa foi construída pelo arquiteto com materiais reutilizados. Foto: Pablo Contreras

 

O CLIENTE PERCEBE ISSO?

Normalmente o cliente que nos procura tem uma percepção bastante aguçada dos detalhes, ele valoriza e
entende um bom projeto. Mas em alguns casos, principalmente quando o cliente não está acostumado com boa arquitetura, ele acha bacana o 3-D e acaba aprovando um projeto sem saber exatamente como vai ser o resultado final. Para esse cliente o trabalho do arquiteto só será realmente valorizado quando perceber a diferença na obra concretizada.

 

E O SEU PROCESSO CRIATIVO. COMO É?

Eu acredito muito na evolução do traço. Você vai testando algumas formas e vai evoluindo o desenho. Nada vem pronto. Meu processo criativo é todo à mão, “old school” mesmo, aí passo os croquis para minha equipe e vamos trocando ideias. O projeto vai amadurecendo e melhorando. Já construí muito. É na obra que você sente o abismo que existe entre o projeto e a materialização das suas ideias. Participar da execução te dá uma grande experiência e influencia diretamente na criação.

 

Foto: Pablo Contreras

Foto: Pablo Contreras

COMO ALINHAR A EXPECTATIVA DO CLIENTE COM A REALIDADE DA OBRA?

Procuramos entender as expectativas, orçamentos e as referências de cada cliente. Conduzimos o projeto
explicando o por quê do que está sendo proposto. Um projeto conceituado, com um partido arquitetônico coerente, se autodefende. Além disso, hoje com toda a tecnologia de realidade virtual, é possível chegar muito próximo do que será o resultado final.

 

O ARQUITETO É UM POUCO MAESTRO, NÃO?

A gente acaba coordenando todo o ciclo da construção. Por isso dedicamos muita atenção para que o
nosso projeto esteja bem detalhado, especificado, que seja autoexplicativo. Essa é um pouco da cultura do nosso escritório. A gente tem essa mania de desenhar muito, de querer resolver tudo.

 

COMO ASSIM?

Eu sempre falo que na obra o que não está bem resolvido e especificado pelo arquiteto vai ser resolvido pelo construtor, pelo cliente, pelo mestre de obra ou pelo servente de pedreiro. Alguém vai resolver isso. E às vezes a solução encontrada pode não ser a melhor para o conjunto. Então, temos a obrigação de entregar o projeto 100% resolvido. Como se fosse um manual de montagem mesmo. Isso permite uma melhor produtividade na obra porque o nível de retrabalho é mínimo.

 

Foto: Pablo Contreras

Foto: Pablo Contreras

 

O QUE É O MELHOR E O PIOR DE CURITIBA?

O MON para mim é a obra mais legal da cidade. Tem uma arquitetura melhor que muitos museus conceituados do mundo. Curitiba é uma supercidade. Urbanisticamente tem muitas possibilidades. O lado ruim talvez seja o mercado imobiliário sem informação, insistindo em algumas fórmulas passadas. Não me agradam as repetições e as releituras meio mal feitas de estilos que já não fazem sentido. Mas também é a minha opinião e não é tão importante assim. Eu só olho e não gosto.

 

O QUE VOCÊ FAZ PARA SE REABASTECER?

Eu faço “rodoterapia” . Gosto de viajar de moto, de desligar. Já atravessei desertos como o Atacama, Mohave, cruzei a América, a Patagônia. Moto é incrível porque requer muita atenção e essa concentração te desliga de todo o resto. Na moto você está muito perto da paisagem, você sente o cheiro, a temperatura e as estradas são lindas.

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