500 dias fora da bolha

Tenile Vicenzi relata sua experiência em um ano sabático

18 de maio de 2017 - Por: Revista Viver

Circuito Poon Hill, um trekking de 5 dias pelos Himalayas, Nepal

Circuito Poon Hill, um trekking de 5 dias pelos Himalayas, Nepal

 

Depois de anos trabalhando no mundo corporativo eu e meu marido, Alexandre Aranha, decidimos abrir mão da carreira para tirar um período sabático. Foram meses de planejamento e economia até encaixotarmos tudo e sairmos para uma viagem de 500 dias. Nossa motivação? Experimentar uma vida com mais tempo e liberdade e repensar nossas escolhas profissionais. Nosso destino? Ásia. Lá fomos em busca do menos familiar, dos costumes mais diferentes; por acreditar que quanto mais impactante fossem as nossas experiências, mais profundas seriam as nossas reflexões

 

Encontrando outras verdades

Em uma mudança constante de cenários, resgatamos o olhar curioso de uma criança, contemplando o novo e o diferente quase diariamente. Novos sons, cheiros, idiomas, sabores, sensações e lugares têm o poder de revitalizar a nossa mente. Mas esse encanto da viagem é também o seu maior desafio. A ideia de conhecer novas culturas é fasci­nante, mas pode exigir boas doses de paciência e tolerância quando somos submetidos a seus hábitos, práticas e regras, muitas vezes contrários ao que aprendemos. É aí que perce­bemos que todas as nossas verdades, certezas e crenças, são relativas. Nos damos conta de que o modelo de vida que le­vamos é apenas um recorte da realidade. Existem inúmeras possibilidades de estar no mundo, de realizar as mínimas tarefas, ou de encarar os grandes acontecimentos da vida.

No Vietnã, por exemplo, todos comem de boca aberta, pois entendem que, quando o alimento entra em contato com o ar, a comida fica mais saborosa. No Japão, comer qualquer coisa enquanto caminha pela rua é falta de res­peito. No Nepal não existe fila, e todos passam na sua frente enquanto você acredita estar em uma. Na Índia, homens andam de mãos dadas como sinal de amizade. Em Bali, o primeiro dia do ano é o dia do silêncio, quando até o ae­roporto fecha e ninguém pode sair na rua, propiciando a todos uma ótima oportunidade de reflexão.

Nas Filipinas as mulheres consideradas de sorte são aquelas que casam com um estrangeiro, pois, segundo elas, os filhos mestiços nascem mais bonitos. Enquanto na Índia o casamento só pode acontecer entre pessoas da mesma casta e religião, quando autorizado pelas duas fa­mílias. E entre tantas diferenças, talvez a mais impactante foi ver a naturalidade com a qual os india­nos encaram a morte e cremam os seus mortos, à beira do rio Ganges, em um fogo que se mantém aceso há milhares de anos. Da forma de se vestir, de falar, de se relacionar, de se locomover, de celebrar, tudo é reve­lador.

Acredito que Amyr Klink tam­bém passou por essas reflexões ao falar que “Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e dou­tores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simples­mente ir ver”.

 

 

 

 

 

 

Das memórias que levaremos para sempre

Nessa viagem, fizemos trekking no Nepal, mergulhamos com tubarão-baleia nas Filipinas, meditamos à beira do rio Ganges na Índia, subimos o vulcão Bromo na Indonésia, conhecemos templos milenares no Camboja e no Myan­mar. Mas com certeza podemos afirmar que as melhores memórias são as dos encontros inesperados. Certamente o sorriso da senhora que nos recebeu para dormir em sua casa no interior do Myanmar está mais vivo na memória do que os templos de Bagan. Assim como o convite para almo­çar na casa de uma família no norte do Vietnã foi tão espe­cial como a paisagem de Halong Bay. Ouvir o pescador que nos contou a história da sua vida nas Filipinas foi um tempo tão bem gasto quanto o do mergulho nas praias mais pa­radisíacas desse mesmo país. E celebrar o Festival Dashain com uma família nepalesa nos renovou tanto quanto as caminhadas pelos Himalaias. Bali, na Indonésia, foi o lugar onde passamos mais tempo, e certamente com o qual mais nos conectamos. A bordo da nossa motoca exploramos a ilha eclética, que têm espaço para todas as tribos: dos sur­fistas de Uluwatu, passando pelos yogis de Ubud, os bala­deiros de Seminyak e os mergulhadores de Amed. A ilha é famosa entre turistas do mundo todo pela sua natureza exuberante e uma cultura hindu intacta, que tivemos a oportunidade de vivenciar com frequência — participando das cerimônias (que são muitas!) ou simplesmente sentindo o cheiro dos incensos das oferendas, espalhadas por todos os lugares, nas primeiras horas do dia. Tudo isso já seria motivo de sobra para a estada prolongada em Bali, mas o que realmente nos segurou lá foi um voluntariado de 6 meses na Green School, a escola mais verde do mundo. A Índia foi o país mais desafiador, e aquele que nos deixou com mais histórias para contar. Entre vacas, macacos, buzinas e pimenta, sentimos como se o nosso mundo tivesse sido virado do avesso. Mesmo depois de tanta andança, a sensação é de que nunca estamos preparados para a Índia! É difícil de compreender a sua lógica em um primeiro momento, mas impossível não se apaixonar por um povo que rapidamente se torna amigo e divide o mínimo que tem, mesmo que esteja te encontrando pela primeira vez na vida. Como a senhora que compartilhou a poltrona do ônibus lotado comigo, abrindo mão do seu próprio conforto.

 

O retorno

Uma das perguntas que mais ouvimos é “E como é voltar?” Em um primeiro momento é como chegar a um novo país, diferente do que saímos. Porque nós mudamos a forma de ver. Algumas coisas são mais legais do que antes, outras vemos com um olhar mais crítico. É bom poder usufruir novamente do conforto f ísico de estar em casa, falar nosso idioma, comer uma comida familiar — e não precisar decidir onde vamos jantar hoje. Basta abrir a geladeira. Isso parece um luxo depois desse tempo todo de vida nômade. À medida que o tempo vai passando, pode ser inquietante estar de volta, dependendo da rotina que se estabelece. Nós optamos por não voltar ao mesmo modelo de antes. Estamos desenvolvendo novos projetos, e isso nos mantém tão motivados como estávamos durante a viagem. Continuamos nos conectando com pessoas, seguimos aprendendo e o desafio continua. Cada dia é um novo dia.

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