Aproveite o caminho

Desacelerar promove mais qualidade de vida e ajuda a melhorar sua relação com a cidade

30 de junho de 2016 - Por: Thaynara Oliveira

Na vida existem dois tipos de pessoas: aquelas que valorizam o caminho e as outras que só pensam na chegada. A fotógrafa Franciele Correa é uma que se encaixa na primeira categoria e considera que muitas coisas na sua vida se resumem a aproveitar o caminho. “Quando tenho uma viagem pra fazer, seja a trabalho ou diversão, minha parte favorita é voar de avião. Gosto de chegar ao aeroporto com antecedência, sentar e ficar olhando os voos. Olhar as nuvens da janelinha também.” Dessa forma, Franciele acredita que consegue extrair o melhor de todos os momentos. “Às vezes, as pessoas querem tanto chegar a determinado lugar que vão perdendo as coisas no caminho. Histórias, amigos, cores, tempo e oportunidades de autoconhecimento.”

Franciele Correa gosta de aproveitar todos os caminhos (Foto: Sharon Eve Smith)

Franciele Correa gosta de aproveitar todos os caminhos (Foto: Sharon Eve Smith)

Em outras partes do dia também é possível aproveitar o caminho. Seja no planejamento de uma festa ou durante o deslocamento entre a casa e o trabalho, a vida fica muito mais prazerosa quando não se pensa somente no final. Esse comportamento faz bem, inclusive, para o corpo. “Quando a pessoa está com pressa, produz muito cortisol, que é o hormônio do estresse. Isso acaba aumentando a pressão arterial e, é lógico, pode resultar em situações desastrosas”, explica o Professor de Psicologia da UniBrasil e consultor de educação de trânsito do DETRAN, Reginaldo Daniel da Silveira.

De acordo com o especialista, manter a calma no trânsito ajuda a equilibrar o neurotransmissor do bem-estar, chamado serotonina. “Motoristas com nível bom de serotonina são aqueles que dão a vez, que não furam o sinal vermelho, porque esses gestos positivos abrem espaço no cérebro para os pensamentos que fazem bem e afastam as substâncias que fazem mal”.

Atrás do volante

Para quem é motorista, o caminho pode ser uma oportunidade de se conectar mais com a cidade. Para a fisioterapeuta Ana Carolina Andrade Hoffmann, dirigir é um momento em que gosta de observar as ruas, a paisagem e as coisas que mudaram. “Também utilizo meu tempo no volante para organizar os pensamentos, a rotina. E para tornar o trajeto mais divertido, adoro dirigir cantando”, brinca.

A produtora de conteúdo Letícia da Rosa Costa passa no mínimo duas horas diárias no trânsito, tempo que aproveita ao máximo. “É o momento para ouvir playlists diferentes e músicas novas, conhecer mais podcasts e aprender com audiobooks. Afinal, é uma parte do dia que não precisa ser desperdiçada”, afirma. Segundo a produtora, o modo como se comporta no carro reflete no seu dia. Por isso, não ver a hora de chegar ao destino final só a deixa com uma carga de ansiedade maior.

O tempo atrás do volante não precisa ser desperdiçado (Foto: Franciele Correa)

O tempo atrás do volante não precisa ser desperdiçado (Foto: Franciele Correa)

Área de Convivência

O simples fato de dirigir mais devagar já ajuda o motorista a aproveitar mais o caminho. “Nos momentos em que a pessoa está dirigindo, ela está naturalmente sujeita a situações de conflito. Porém, quando está em uma área acalmada, ela segue com menos pressão do que em vias mais rápidas”, esclarece o psicólogo Reginaldo Daniel da Silveira.

Em Curitiba, a Área Calma é um espaço que, além de exigir a redução da velocidade (no perímetro, a velocidade máxima permitida é de 40 km/h), promove a convivência saudável entre motoristas, motociclistas, pedestres e ciclistas no centro da cidade. Segundo o diretor de engenharia da Secretaria de Trânsito de Curitiba, Maurício Razera, a Área Calma foi desenvolvida com o objetivo de contribuir para a redução do número de mortes no trânsito em 50% até 2020. “Desde 2010, quando Curitiba passou a fazer parte do Projeto Vida no Trânsito, iniciativa da Organização Pan-Americana de Saúde, a Secretaria Municipal de Trânsito passou a realizar estudos mais intensos para atingir a meta assumida. Baseado nos dados mapeados chegou-se a um polígono viável para delimitação de área para tratamento dos fatores de risco”, explica Rasera.

Razera complementa que a Área Calma busca gerar um trânsito mais humano por meio da convivência com segurança. “Uma das finalidades é justamente o compartilhamento, levar ao convívio pacífico entre motoristas, pedestres e ciclistas. Viver o centro da cidade. Apreciar a paisagem urbana central com seus prédios históricos, parques, praças. Caminhar mais.”

A Área Calma é um espaço que, além de exigir a redução da velocidade, promove a convivência saudável entre motoristas, motociclistas, pedestres e ciclistas no centro da cidade (Foto: Luiz Costa/SMCS)

A Área Calma é um espaço que, além de exigir a redução da velocidade, promove a convivência saudável entre motoristas, motociclistas, pedestres e ciclistas no centro da cidade (Foto: Luiz Costa/SMCS)

Qualidade de vida

A pedagoga e Coordenadora da Comissão de Educação do Projeto Vida no Trânsito, Erica Nickel, explica que Curitiba foi uma das cinco primeiras capitais a receber o projeto e, desde então, há um grande esforço de diversos setores para alcançar os objetivos. “Assim como muitas outras cidades, Curitiba também está percebendo que um ambiente menos agressivo e estressado permite às pessoas agirem com mais calma e paciência, e isso acaba produzindo qualidade de vida.”

Os motoristas já estão sentindo a diferença. “A redução da velocidade ajudou a organizar tudo e, aos poucos, vai ensinando as pessoas a serem menos ‘apressadas’. Assim, elas conseguem olhar melhor ao redor e perceber muitas coisas legais”, conta a produtora de conteúdo Letícia da Rosa Costa. Para a fisioterapeuta Ana Carolina Andrade Hoffmann “com a Área Calma, o motorista acaba sendo obrigado a diminuir a velocidade e o ritmo”.

Como desacelerar

Se você quer aproveitar mais o caminho e não sabe como, confira essas 6 dicas de atitudes par tornar o trajeto do dia a dia mas agradável.

1. Programe-se para sair com alguns minutos de antecedência. Seu trajeto será muito mais prazeroso se você não estiver preocupado em chegar atrasado.

2. Ouça músicas que te relaxem. Você vai ver que ouvir uma música tranquila traz mais benefícios do que escutar as notícias diárias ou comentários sobre o seu time de futebol (existem outros momentos para isso).

3. Faça exercícios respiratórios. Inspirar e expirar parecem atividades simples, mas a psicologia cognitiva tem desenvolvido diversos exercícios de respiração para tratar a ansiedade.

4. Está preso em um congestionamento e não tem como sair? Trabalhe o seu nível de aceitação de dificuldades, afinal elas são inevitáveis.

5. Se você está dando carona para alguém, tome cuidado para não entrar em conversas profundas que tirem sua atenção. Não precisa dirigir completamente calado, mas depende sobre o que, quanto e como.

6. Opte por fazer parte do caminho diário a pé ou de bicicleta e tente reparar nas pequenas coisas.

Quer mais uma ajudinha? Confira a playlist Desacelere que a VIVER Curitiba preparou para você ouvir no carro:

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