A arte por outros olhos

Doutor Hamilton Moreira fala sobre arte e como a sensibilidade pode ampliar seu universo

17 de setembro de 2016 - Por: Luis Fernando Carneiro

 

A Revista VIVER Curitiba entrevistou o doutor Hamilton Moreira, diretor clínico do Hospital de Olhos do Paraná. O oftalmologista contou um pouco de sua ligação com a arte e como a sensibilidade pode ampliar seu universo.

 

QUAL SUA RELAÇÃO COM A ARTE?

Ser médico exige que você sempre trabalhe com evidências, senão você pode ferir a ética e ultrapassar os limites. Então exige uma linguagem muito técnica, muito concreta. Eu sempre tive uma vontade de expressar de uma forma mais livre emoções e sentimentos e não é fácil dentro da medicina.  Sempre gostei muito de literatura e sou apaixonado por música e teve uma época que eu tentei, sempre frustrado, tocar flauta transversa, mas não tinha talento e não fui adiante. Hoje, tenho me interessado cada vez mais pela arte, principalmente pelas artes visuais.

 

EM QUE MOMENTO ESSA PAIXÃO SE INTENSIFICOU?

Recentemente, quando fui presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, tive mais contato com essas outras áreas e o pessoal da Casa da Imagem, aqui de Curitiba, me convidou para fazer uma palestra com professores da USP sobre a percepção das cores. Eu já tinha ligação com as artes visuais, especialmente a pintura, mas comecei a me interessar mais a partir daquilo. Existe uma ligação grande entre a minha profissão e as artes visuais.

 

COMO ASSIM?

Com a oftalmologia você vai até a visão técnica. A partir dali tem uma coisa chamada percepção do que você está enxergando. Tem uma frase do Hilton Rocha muito bonita que diz: “Para ver bastam os olhos, para enxergar é preciso alma”. É mais ou menos nesse hiato que eu percebo hoje em dia onde está meu lado B.

 

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“Para ver bastam os olhos, para enxergar é preciso alma” comenta doutor Hamilton (Foto: Patrícia Amancio)

 

ENTRAR NO UNIVERSO DA IMAGINAÇÃO É UM GRANDE DESAFIO?

Com certeza. Isso me instiga muito a notar que especialmente na minha profissão existe essa dimensão do intangível, da percepção do que se vê. Não é simplesmente enxergar bem, é perceber o que se está vendo.

 

ENXERGAR MAL PODE AFETAR A RELAÇÃO COM O MUNDO?

Sim, o míope, que enxerga mal para longe, quando criança, se não passar a usar óculos, ele fica introspectivo. Ele começa a brincar mais num quarto, num ambiente em que se sinta seguro. O hipermétrico já é o contrário, é a criança que fica traquina.  E aí você segue adiante e corrige quem sempre usou óculos com graus mais altos, ele passa a ver o universo maior. A percepção daquela pessoa é de que o mundo ficou maior.  Existe uma sutileza toda especial em enxergar bem.

 

ISSO MUDA A SUA VISÃO COMO MÉDICO?

Nesse universo eu consigo hoje em dia entender melhor meus pacientes. É necessário entender essa área que transcende a tecnologia. Ver talvez seja especificamente técnico, mas enxergar é algo que vai além, é muito mais complexo.

 

ONDE A ARTE PODE FAZER A DIFERENÇA?

Você vai amadurecendo e tendo consciência da sua finitude. Nesse sentido, as coisas que tocam o coração passam a ser mais importantes. Esse contato com a arte de uma forma geral permite que você acesse uma área dos seres humanos que é a área da sensibilidade. Qualquer pessoa é tocada quando escuta uma música, quando lê uma poesia e certamente quando consegue enxergar algo em uma obra visual. E aí é muito especial porque ela não oferece tudo, ela instiga você a entrar naquele universo e ver o que acontece, e nem sempre é o que o artista pensou em provocar.

 

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(Foto: Patrícia Amancio)

 

 

E NA MEDICINA, COMO A ARTE PODE SER IMPORTANTE?

Quanto mais cedo na vida a pessoa tiver contato com o lado mais sensível do ser humano, vai ser um melhor profissional. Quanto antes na medicina, que é uma profissão tão técnica, você puder entender que existe um lado B em todo mundo, que existe algo que não está sendo verbalizado, que vai além do consultório, melhor profissional será. É claro que a formação é técnica, mas é preciso entender que existe um ser humano à sua frente, que não existe apenas um corpo, mas uma alma.

 

COMO ESTÃO OS MÉDICOS HOJE?

Estão trabalhando demais. Médico para exercer bem a medicina deve ter um pouco mais de calma e mais atenção e infelizmente só tende a piorar. É difícil prever o futuro, mas certamente com o que existe hoje é fácil perceber que os convênios estão acabando com o que existe de mais bonito na medicina, que é a relação médico-paciente.

 

É POSSÍVEL VIRAR ESSE JOGO?

Acredito que a mudança só vai acontecer de forma individual. Uma pessoa, para fazer com que o jogo mude para o seu lado, precisa investir na sua formação e se valorizar.

 

QUAIS OS SEUS ARTISTAS PARANAENSES PREFERIDOS?

É possível que eu me esqueça de vários e cometa alguma injustiça, mas não posso deixar de citar o Geraldo Leão e a Guita Soifer. São dois paranaenses de que gosto muito. Dos novos talentos, tem um artista que se destaca que é o Felipe Scandelari. Ele é daltônico e pinta conforme vê. Um quadro de que gosto muito é o da imagem da esposa dele, uma obra muito bonita em tons de verde.

 

DAS SUAS OBRAS, QUAL A MAIS ESPECIAL? 

Para mim é uma obra do artista Sérgio Sistri, que é de São Paulo. Ele pintou uma peça como se fosse uma trave de futebol. É como se fosse a moldura de um quadro, mas sem a parte de baixo. E não tem tela no meio. É só a moldura. É de longe a obra de que eu mais gosto. Tive inclusive que fazer uma pequena reforma em casa porque havia uma tomada na parede em que eu queria colocá-la. Minha mulher ficou louca, porque tive que chamar pedreiro para tirar uma tomada porque eu queria colocar uma trave de futebol colorida dentro de casa. Imagine! Mas ela entende esse meu lado e me apoia. O que me encanta nessa obra é que não há nada no meio e eu preencho esse vazio com tudo que você possa imaginar. Dependendo do meu astral, do meu dia, eu modifico o preenchimento. É a obra que eu tenho que mais me conecta com o meu emocional, com o meu lado B.

 

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Doutor Hamilton apresenta a obra do artista Sérgio Sistri: “É um das que mais gosto.” (Foto: Patrícia Amancio)

 

SE A VIDA TEM AS CORES QUE A GENTE PINTA, COMO TEM SIDO SUA PALETA?

Tem sido muito colorida ultimamente. Porque eu tenho tido uma vida muito feliz. Eu tenho uma necessidade de separar o que é sucesso pessoal do sucesso empresarial. O meu lado pessoal está muito satisfeito e no empresarial estou numa insatisfação permanente. Mas estou muito feliz em casa, a empresa mesmo com essa crise está muito bem.

 

 


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