Câncer de mama: como um envelope mudou minha vida

O que passa pela cabeça de quem recebe um diagnóstico de câncer de mama? Confira essas histórias inspiradoras

17 de outubro de 2017 - Por: Redação

Paulo Silva foi quem recebeu o resultado do exame da esposa, Deize. "Um dos primeiros pensamentos foi de culpa ‘será que foi algo que fiz?" (Foto: Pablo Contreras)

Paulo Silva foi quem recebeu o resultado do exame da esposa, Deize. “Um dos primeiros pensamentos foi de culpa ‘será que foi algo que fiz?” (Fotos: Pablo Contreras)

 

Receber a confirmação do diagnóstico de uma doença grave é o tipo de notícia que vira o mundo da pessoa – e de todos à sua volta – de cabeça para baixo. Neste outubro rosa, conheça cinco histórias de luta contra o câncer de mama e inspire-se a se cuidar e a encarar a vida com fé e otimismo.

 

Gente_Cancer de mama_como um envelope mudou minha vida 3

“Lembro como se fosse hoje o dia em que fui buscar meu exame no laboratório, há 1 ano e 4 meses. Estava sozinha no estacionamento quando decidi abrir o resultado, confiante de que não seria nada. Naquele momento, eu, Marina Scandolara, 28 anos, jovem, saudável e cheia de sonhos, vi o mundo parar. Fiquei alguns minutos ali, paralisada, tentando assimilar o que aquele diagnóstico representava em minha vida. Depois tive uma catarse de emoções, medos e sentimentos que vieram à tona diante de algo tão desconhecido para mim. No dia seguinte, acompanhada por minha mãe, fui ao médico e tive esclarecimentos sobre o câncer de mama e tratamento indicado para o meu caso. Com o apoio dos meus terapeutas, família e amigos, senti crescer em mim uma força e confiança que pareciam inabaláveis, como um instinto de sobrevivência e uma vontade de viver pulsante dentro de mim. Foi muito importante me manter confiante e desconstruir crenças e projeções relacionadas ao câncer, assim como criar um ambiente de positividade de todas as pessoas que estavam ao meu redor, para que essa vibração ajudasse em meu tratamento. Minha cura se iniciou pela aceitação e principalmente em não assumir um lugar de vítima e sim de responsabilidade sobre meu processo. Ioga, meditação, Reiki, leituras, orações, cuidados com a alimentação e outras terapias complementares me ajudaram a passar por esse momento da melhor forma. Terminei meu tratamento há 4 meses e sigo com a medicação dos bloqueadores hormonais, exames e acompanhamentos de rotina. Sempre gostei de fazer ritos de passagem em cada etapa concluída para encerrar simbolicamente os ciclos do tratamento. Sinto muita gratidão por estar viva e poder seguir com meus sonhos e propósitos. Acredito que a Marina de hoje está mais fortalecida, dá menos atenção ao que não tem importância e sabe o quanto a vida é preciosa.”

Marina Scandolara, 29 anos

 

Gente_Cancer de mama_como um envelope mudou minha vida 4“Era julho de 2015, programávamos uma viagem à Europa para celebrar 10 anos de casados. Estávamos no melhor momento de nossas vidas, tudo ia bem, e acabávamos de receber nosso segundo filho. Deize (40 anos) o amamentava e, de repente, apareceu um nódulo no seio esquerdo. Pensamos que era por conta da amamentação, pois cistos durante esse período são comuns. O ultrassom também parecia indicar que era benigno. Sabia que o resultado da biópsia estava pronto e, por ser médico, tinha acesso direto. Então recebo o laudo: ‘Paulo, é um carcinoma infiltrante grau 3’. Sem lembrar exatamente o que significava, mas compreendendo que era um câncer de mama agressivo, vivenciei todos os jargões que se ouve em situações trágicas, “o chão se abriu, um filme passou pela cabeça, fiquei em estado de choque”. Um dos primeiros pensamentos foi de culpa ‘será que foi causa emocional? Alguma discussão, aquela briga anos atrás, será que foi algo que fiz? Eu deveria ter visto isso antes’. Logo após a confirmação, liguei para Deize para encontrá-la. Durante o trajeto ensaiava mentalmente como contar. Ela estava em uma loja para a qual vendia roupas há tempos e tinha certa intimidade com as funcionárias. Estava sentada com nosso filho, em paz, pois pensava que seria algo benigno. Quando a vi, mesmo rodeada de pessoas e apesar do ensaio, falei: “Deize, é câncer”. Imediatamente ela desmoronou em lágrimas, mas em seguida estabilizou suas emoções. Desde então foram exaustivos exames, consultas, tratamentos, dores e efeitos colaterais. Entretanto, nada disso tem nos roubado a paz e a fé. Atualmente em remissão e de malas prontas para aquela viagem que havia sido cancelada, vivemos mais intensamente cada dia, com uma ressignificação do tempo e da vida.”

Paulo Wagner Teichmann Silva, médico

 

Gente_Cancer de mama_como um envelope mudou minha vida 6“Já sabia que o conteúdo do envelope não seria bom, pois havia percebido no dia da mamografia. Por isso, busquei o exame só no dia da consulta e levei direto para o médico. Quando ele abriu, disse ‘nós temos um problema, mas é tratável’. Depois que me explicou tudo, eu respondi ‘quero te dizer uma coisa: você pode contar comigo, do início ao fim’. Acho que essa reação foge um pouco da média, as pessoas em geral choram e se revoltam, mas me preparei para aquele resultado, a aceitação daquele momento me fez encontrar meios de lutar para que ele fosse ruim, mas que eu pudesse tirar o melhor dele. Porém, lá no fundo, pensei ‘p… me ferrei!’. Me senti culpada, na verdade, porque não fazia meus exames de mamografia há 6 anos. Fiz com 39, depois a médica sempre pedia e eu nunca mais fiz. Não me cuidei, poderia ter descoberto antes. Mas em momento nenhum pensei que ia morrer. Isso tudo aconteceu há dois anos. Foi muito difícil contar para minha mãe. Eu tinha mudado radicalmente o cabelo e, no dia, minha mãe disse ‘não gostei, te envelheceu’. Falei ‘queria testar porque vou raspar o cabelo. É que vou fazer um tratamento e vai cair tudo…’ Como assim? Que tratamento é esse? Contei que estava com um nódulo no seio que precisava tratar, fazer quimioterapia. Aí minha mãe começou todo o drama e eu disse ‘menos, mãe, vai dar tudo certo. Sei que vai ser chato, mas a gente vai passar por isso numa boa’. Mas a maior dificuldade mesmo foi contar para os meus filhos, que tinham 14 e 11 anos na época, porque eu tinha medo de que eles ficassem muito inseguros e se desesperassem. Mas mostrei a eles que estava pensando positivo. Terminei meu tratamento com sucesso, tomo apenas a medicação para prevenção. Para mim virou uma meta mostrar às pessoas que o diagnóstico de câncer não é um atestado antecipado de morte. Quando falo com pacientes em tratamento, digo que elas também não devem enxergar dessa forma. A gente tem que encarar como ‘é mais um desafio’. E a vida é cheia de desafios, não é?”

Vanusa Vicelli Ribeiro, 48 anos

 

Gente_Cancer de mama_como um envelope mudou minha vida 5“Esse é o tipo de envelope que muda a vida de qualquer pessoa, qualquer uma, sem exceção! No meu caso, não foi diferente: meu mundo girou na minha cabeça em fração de segundos. Mas respirei e na hora só pensei: vamos lá, é isso que tenho pra colocar em primeiro plano agora. Meu pensamento se voltou para os meus filhos e marido. Foi quando me dei conta da importância deles naquele momento e que minha vida só tinha sentido por eles e para eles. Pronto, respirei mais uma vez e corri tomar todas as providências necessárias para iniciar rapidamente meu tratamento, afinal de contas, o restante a gente vai descobrindo com o passar do tempo, então não havia espaço para lamentações. E elas realmente nunca fizeram parte da minha vida. Agi como se ligasse o piloto automático e ele me guiou. A ‘ficha’ só caiu realmente quando fiz a primeira sessão de quimioterapia. Foi quando me dei ao direito de chorar e colocar para fora tudo o que guardei até ali. E foi só! O resto foi sempre pensamento positivo, sorriso no rosto e amparo no apoio incrível que recebi e recebo todos os dias das pessoas que estão à minha volta. Me tornei uma espécie de ninja! O projeto Batom com Lenço – Solidariedade às Carequinhas surgiu numa madrugada de insônia – um dos efeitos da quimioterapia. Senti que precisava fazer algo a mais do que me tratar somente. Como desde que tive o diagnóstico os lenços foram minha primeira opção, achei que poderia ajudar muitas mulheres que enfrentam a doença a passar por essa fase com mais autoestima. Um lenço e um batonzinho dão cor às nossas imagens, que ficam bastante prejudicadas por conta da queda dos cabelos, sobrancelhas e cílios. Já arrecadamos 800 lenços e 800 batons. A campanha está sendo um combustível incrível no meu tratamento.”

Kelen Sindeaux, 37 anos

 

 Gente_Cancer de mama_como um envelope mudou minha vida 7

“Há muito tempo faço o check-up preventivo anualmente. Em 2013, como iria viajar na época dos exames, resolvi antecipá-los. Faço sempre com o mesmo médico e, dessa vez, ele falou que havia algo diferente e que teria que fazer biópsia, mas já deu a entender que era grave. Saí de lá e liguei para meu marido e meus dois filhos – todos ficaram apavorados, eu que os acalmei! O resultado saiu em uma semana. Ao receber o diagnóstico, dizendo que realmente era câncer, não senti medo nem insegurança. Falei para todos que faria tudo o que fosse necessário e entregaria nas mãos de Deus. Sempre tive fé e certeza de que tudo daria certo. Na primeira consulta com o oncologista, meu marido perguntou se o caso fosse com a esposa ou filha dele, o que faria. A resposta foi que tiraria toda a mama. Fiz sessões de quimioterapia, mastectomia da mama esquerda e quadrantectomia na direita. Mesmo antes de entrar na cirurgia, era eu que estava acalmando minha família. Sou muito forte, sempre foi assim. Quando meus filhos eram pequenos e ficavam doentes ou se machucavam, meu marido se desesperava e era eu que agia. Recebi todo o apoio de minha família nos momentos mais difíceis, o que é essencial. Meu tratamento foi um sucesso e, por esse motivo, sempre aconselho a todas que façam o autoexame e, detectando algo diferente, não tenham medo, pois tudo que é tratado no início tem solução mais rápida. Meu médico sempre me diz que se todas as pacientes tivessem minha fé e otimismo, ele estaria feito! Essa minha força interior foi fundamental para a cura.”

Maria Luiza de Pinho Sepulcri, 68 anos

 

Posts Relacionados

Operação sorriso Fotos: Fer César   Entro numa sala apertada de um prédio antigo num anexo do Hospital do Trabalhador. Dr. Renato Freitas me recebe e pede ...
Seja curioso para ir além Foto: Mariana Barcellos   Marcos Juliano Ofenbock é economista por formação, empresário, professor, arqueólogo, inventor do primeiro espor...
Formas de vergonha Foto: Divulgação   O Dia Internacional da Mulher está aí. Uma data instituída para lembrar a luta das mulheres por melhores condições de t...

Viverno digital

Loading...