Carolina Ferraz e o segredo para tirar as mudanças de letra

Em entrevista exclusiva, Carolina Ferraz conta sobre como foi encarar a maternidade em dois momentos tão diferentes

18 de maio de 2018 - Por: Redação

 

Foto: Gustavo Arrais

Foto: Gustavo Arrais

 

Ela é prática. Rápida. Pontual. Gosta de perguntas objetivas, demonstrando nas entrelinhas que não tem tempo a perder. Nos encontramos em São Paulo para a entrevista e a sessão de fotos e Carolina Ferraz me recebeu com aquele sorriso. Linda aos 50 e com muito mais repertório que aos 20 é a mulher possível  que as mulheres sonham ser.

Carolina é resultado de um pouco de tudo que viveu e muito do que aprendeu a construir com cada elemento que o destino lhe apresentou. A morte do pai, aos 14 anos, a ida de Goiânia para São Paulo, os primeiros trabalhos, como modelo e na extinta TV Manchete, como apresentadora. O início como atriz, uma teimosia do seu então diretor que se revelou uma bela vocação. Um casamento e sua primeira filha, Valentina. Outro casamento e, aos 46 anos, uma nova luz com a espoleta Isabel. Aos, 49 anos, depois de 27 de contrato, a dispensa da Globo. Acostumada a transformar limões em deliciosas limonadas, ela segue em frente com a mesma pegada. Lota o teatro com sua peça “Que tal nós dois?”, está lançando seu segundo livro de receitas e na nossa conversa deu pelo menos duas boas pistas para viver com qualidade: não se vitimizar e jamais se culpar. Com vocês, Carolina Ferraz.

 

Qual a receita para tirar tantas mudanças de letra?

Eu não sou uma pessoa que tem muita paciência para se vitimizar. Vários amigos sempre falam quando as coisas acontecem, “ah, minha educação me fez assim, minha criação, os meus pais”. Eu falo, “gente, seu pai cria você, mas depois de uma certa idade, meu amor, seja lá o que acontecer com você, a responsabilidade é sua. Tire toda essa galera aí do meio e resolva você sozinho”. Eu acho que coisas acontecem e a grande sabedoria é você conseguir se adaptar, não resistir às mudanças, o que não quer dizer que você não sofra ou que não seja dolorido, mas são processos.

 

Quais seus próximos passos?

Há ainda tanta coisa para acontecer na minha vida e o melhor é saber que eu me sinto pronta. As coisas vão acontecendo e eu também tenho muita fé, eu acredito que tenha alguma coisa que vá além de mim mesma e que me conduz.

 

“As plataformas mudaram, mas só fica quem tem conteúdo a oferecer de fato, só se estabelece quem tem talento para sobreviver de fato”

 

Como você lida com esse novo momento, com as mudanças que a tecnologia trouxe?

Até isso já é velho, na verdade. Vamos ver o que vai acontecer de diferente. Faz pelo menos uns oito anos que não vejo mais televisão. São muitas plataformas e sem querer acabo me conectando, o que não quer dizer que eu seja das mais ativas. Eu não sou uma pessoa muito ativa nas mídias sociais, mas a coisa da velocidade de informação, das plataformas que se modernizam, elas eu já absorvi e conto com elas, inclusive, para resolver muita coisa.

 

O que é preciso para construir uma carreira sólida hoje em dia?

As coisas são complexas. É preciso ter a sorte mais ou menos de descobrir em qual área a gente quer atuar e ir em frente. As coisas mudam, mas como dizem os franceses, “plus ça change, plus c’est la même chose”, quanto mais muda, mais tudo continua igual. As plataformas mudaram, mas só fica quem tem conteúdo a oferecer de fato, só se estabelece quem tem talento para sobreviver de fato. Num mundo de tanta superficialidade, de tantas frivolidades, nunca foi tão chique ser alguém que não usa mídias sociais, por exemplo.

 

Como a culinária aconteceu na sua vida?

Sempre gostei de cozinhar, minha mãe cozinha muito bem e passou isso pra mim. Eu sempre ia para a casa dos amigos, cozinha para muita gente e volta e meia diziam que eu tinha que fazer um livro. Há oito, nove anos fiz um livro que foi um supersucesso. Eu não esperava, mas acho que como nunca fui chef e sempre me posicionei como uma mulher que gosta de cozinhar, eu testei muito as receitas, porque eu gostaria muito que as receitas funcionassem. A minha experiência como consumidora de livros de culinária é que a maioria dos livros que eu comprava a receita de fato não funcionava. Se eu que sei cozinhar, eu que tenho uma certa noção das coisas, comigo não está funcionando, uma pessoa leiga vai tentar, vai dar errado e nunca mais vai querer cozinhar. Ao invés de aproximar as pessoas da cozinha, vai afastar. Eu testo muito, em todas as condições de cozinha e com ingredientes diferentes, porque quero passar receitas que de fato funcionem.

Agora no final de abril estou lançando meu segundo livro.

 

Como foi ser mãe em dois momentos tão distintos?  

A Valentina tem 23 anos e a Isabel faz três anos agora em maio. São duas filhas únicas e as duas me fizeram muito melhor como pessoa. A Valentina foi uma paulada. Ela veio e não deixou pedra sobre pedra. Eu me transformei muito em função dessa experiência, ela é minha grande companheira, a gente é muito próxima, a despeito dela morar fora do Brasil já há muitos anos. É uma relação de muita admiração, de muito companheirismo, justamente porque foi muito cedo.

 

“A grande sabedoria é você conseguir se adaptar, não resistir às mudanças, o que não quer dizer que você não sofra ou que não seja dolorido, mas são processos”

 

Foto: Gustavo Arrais

Foto: Gustavo Arrais

 

E a Isabel?

Ela é que não vai deixar pedra sobre pedra! (Risos) É uma coisa muito impressionante porque elas têm temperamento muito diferentes. Costumo dizer que a Valentina é uma lady e a Isabel uma rapper. A Isabel é sacudida, tem muito humor, é uma alegria. A Isabel é uma luz na minha vida. São experiências diferentes, porque estou em momentos diferentes, mas são iguais. As melhores coisas da minha vida são as duas.

 

Como conciliar a maternidade com o trabalho?

A primeira coisa é que não tenho culpa. Eu amo trabalhar, não tenho culpa nenhuma de trabalhar, de gostar do que eu faço. Eu amo minhas filhas, minha família, e consigo, com muita ginástica, muito cebion, muito targifor, aguentar e administrar tudo. Não é fácil, mas procuro ensinar as minhas filhas que é assim, que dá para fazer. Algumas vezes você vai mais para um lado, outras mais para o outro, tudo funciona na vida como sistema compensatório e a gente tem que estar aberto para uma hora ceder de um lado, outra hora ceder do outro, mas é preciso sempre seguir, isso é o principal.

 

“A gente vive num país que supervaloriza a juventude. Se você olhar ao redor do mundo, as grandes campanhas publicitárias são com mulheres em torno dos 50 anos”

 

Como você vê o movimento cada vez maior das mulheres em busca de igualdade?    

Acho muito interessante o empoderamento feminino e onde eu gosto dele especificamente é no que se refere a igualdade de direitos. Acho que nós mulheres merecemos de fato, finalmente, sermos tratadas igualmente com os homens em qualquer ambiente, seja no trabalho, seja caminhando na rua, em qualquer situação. Acabou, não dá mais para termos qualquer desculpa que venha contradizer isso. Nem em termos de salário, nem de tratamento. Nada. Passou da hora da gente resolver essa questão.

 

Foto: Gustavo Arrais

Foto: Gustavo Arrais

 

Como é o mercado de trabalho após os 50?

A gente vive num país que supervaloriza a juventude. Se você olhar ao redor do mundo, as grandes campanhas publicitárias são com mulheres em torno dos 50 anos. A Julia Roberts, a Julianne Moore, Carla Bruni, Jennifer Aniston e por aí vai. Os editoriais de moda são com as meninas mais novas, mas as mulheres mais velhas representam uma fatia de mercado muito grande. São mulheres que já estão bem estabelecidas na profissão, têm um bom poder aquisitivo, são consumidoras, e lá fora elas são tratadas como mulheres possíveis, como mulheres reais. É bom se espelhar nessas mulheres como algo que faz sentido para a gente.

 

E aqui no Brasil?

Isso ainda não acontece dessa forma no mercado publicitário. Já na dramaturgia existem excelentes papéis para as mulheres, não de protagonistas. As protagonistas ainda são as mocinhas. É muito constrangedor. Eu lembro que eu tinha 35 anos e fazia papel de moça de 22, 23 anos. No Brasil não se escrevem histórias para protagonistas maduras, a não ser alguma exceção aqui ou ali, mas existem excelentes papéis.

 

Foto: Gustavo Arrais

Foto: Gustavo Arrais

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