Ela é Iluminada

A arquiteta Anna Paula Amaral é daquelas pessoas que vale a pena conhecer

30 de março de 2016 - Por: Luis Fernando Carneiro


Ela é fora da caixa. Afinal, onde já se viu uma curitibana que cumprimenta as pessoas nos cafés, nas ciclovias e até mesmo no elevador? Com humor sarcástico e personalidade marcante, a arquiteta Anna Paula Amaral é daquelas pessoas que vale a pena conhecer. Especialista em projetos de iluminação e sócia da loja Duo Light, assume o papel de mulher moderna, mas está longe de parecer mais forte do que é. Neste bate-papo, inclusive, fez questão de dizer que mulher que é mulher sabe chorar e que aprendeu, a duras penas, que é preciso às vezes deixar os homens pagarem a conta e ainda que sonha em acordar com um buquê de flores ao lado da cama. Convidamos Anna Paula para essa conversa simplesmente porque ela é igual a muitas e muitas mulheres. E ainda que não tenha filtros, suas cores um pouco mais fortes do que a média nos fazem refletir sobre uma vida com menos limites.

 

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Fotos: Pablo Contreras

É fácil te definir?

Acho que não… Eu sou muito transparente, extremamente sensível, mas às vezes sou ríspida com as pessoas e quando vi eu já falei. Quando percebo que isso acontece é o fim do mundo para mim. Também sou muito sarcástica e muita gente não entende isso. Tenho tentado colocar um filtro ou até mesmo ficar quieta em algumas situações, mas ainda é bem difícil.

Essa sua autenticidade assusta os homens?

De certa forma sim. Eu tenho uma liberdade muito grande. Moro sozinha, não sou casada, não tenho filhos e a minha vida pessoal é super-reservada.

Os homens não estão preparados para lidar com mulheres fortes?

Acho que sim, eu que não tenho achado ainda (risos). Eu acho que a culpa na verdade é das mulheres, a gente ainda não se permite, não deixa que eles paguem uma conta. Eu tenho tentado mudar e ser um pouco mais romântica, aceitar as gentilezas com mais naturalidade. Nossa geração foi criada para passar outra imagem, mas na verdade a gente é frágil pra caramba. O sonho de toda mulher é acordar com um buquê de rosas do lado. Na verdade, flores mais exóticas… helicônias seriam o máximo!

Em um começo de ano muita gente fala em mudança. Como você lida com isso?

Quem não me vê há mais de cinco anos quando me encontra não me reconhece. Eu mudei da água para o vinho. Fui casada e tive que lidar com o fim de um ciclo. Antes eu não tinha uma autoestima boa que me permitisse me assumir. Nestes últimos anos reaprendi a viver, mudei o jeito de vestir, emagreci e comecei a mudar. Com o aumento de autoestima minha vida foi se direcionando de uma forma muito melhor.

Como foi o primeiro passo?

Eu havia acabado de abrir a empresa, estava trabalhando bastante e com a autoestima muito baixa. Eu não estava legal, estava gorda, sem me cuidar, e para ajudar comecei a ter crise de pânico. Um dia, depois de sair de um atendimento no Hospital Vita, eu vim chorando pela Carlos de Carvalho e coloquei algumas metas. Prometi para mim mesma que se algumas mudanças não acontecessem eu me separaria. E exatamente um ano depois estava me separando. Eu sabia que precisava ser corajosa e largar tudo pela minha felicidade. Não era por ninguém, era porque eu precisava daquilo, precisava devolver minha vida a mim mesma.

 

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Por que muitas vezes as mulheres prorrogam essas decisões?

Por medo de ficar sozinhas. Eu prorroguei por um tempo, ocultando alguns sentimentos. Depois eu resolvi cuidar de mim, dar mais atenção para o meu trabalho, para os meus amigos e para minha saúde. Eu sempre tive um relacionamento ligado no outro e nunca soube viver sozinha muito tempo. Eu nunca tive o prazer de cuidar de mim. Eu resolvi então, com muita terapia, é claro, fazer desse um momento meu.

Um período sabático…

Sim, um tempo sem me preocupar com a busca por alguém, para me permitir curtir mais meus amigos, minha casa, trabalhar mais focada e colocar alguns planos em dia. Não que eu não possa fazer isso com alguém, mas eu descobri que eu precisava disso para que eu tivesse forças para ter relacionamentos nos quais eu pudesse colocar minhas opiniões sem ter medo de levar um pé na bunda. Foi muito difícil tomar esse tipo de decisão, mas de repente a coisa acontece e é como o Sol quando aparece.

O que tem ajudado você a viver melhor? 

Faço três tipos de terapia: psicóloga semanal, crossfit e andar de bicicleta. A terapia é fundamental para que eu me conheça melhor. Já o crossfit é tipo uma seita e lá eu me esqueço do mundo. Também tenho andado por toda a cidade de bike e feito muitas descobertas. O Passeio Público, por exemplo, é o lugar mais bonito da cidade. Aquele lugar é lindo, é uma pena que não seja valorizado. De bicicleta a gente acaba vendo prédios que você não imaginava que eram tão legais. 

Qual o segredo para se destacar em uma área tão concorrida?

Acho que é em função do modo que a gente atende, despachado, e também a criatividade dos nossos projetos. O comprometimento com os clientes é também um grande diferencial. Eu faço de tudo, jamais deixo um arquiteto na mão. Perder a credibilidade é algo muito sério.

Como você pretende lidar com este ano desafiador?

Eu falei que a crise não entra na minha empresa. Claro que não é bem assim, ela está ali na porta escondidinha. Mas a gente tem buscado inovar. Vamos reformar a loja, mudar um pouquinho o conceito e vamos abrir um coworking exclusivo para arquitetos. Vai ser um espaço muito especial com apoio técnico para os profissionais.

Você acha que existe uma nova Curitiba?

Existe uma nova Curitiba com cabeça de velha. É tudo muito modinha. Você tem a Rua Trajano Reis, que é uma festa. Aí tem o Pizza que é uma pizzaria que eu adoro ir, onde você come a pizza sentado no meio-fio. Baratinho, melhor cerveja da cidade, você senta, come e é feliz. É para ser um lugar descolado, mas dali a pouco você vai lá e já começa ver um monte de cocotinha com  bolsa “Luis Vintão”  fazendo pose. Ou seja, sempre tem aquele público que não sabe onde se encaixa. Mas talvez esse não seja um problema só de Curitiba.

O que você definitivamente não curte em Curitiba?

Odeio essas curitibanices de não cumprimentar ou de tratar de forma diferente um garçom ou um atendente. Acontece muito de cliente me tratar mal na loja e só passar a me tratar bem quando descobre que eu sou sócia. Isso é muito curitibano.

A vida começa aos 40?

Com certeza, hoje eu sou aquela mulher que eu queria ser quando tinha 18 anos. Tenho grandes conquistas e algumas poucas decepções, mas acho que isso é o melhor da vida. Encontrar estratégias para lidar com os desafios é a melhor coisa da vida.

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