Ela não se chama Alice

Mônica Berlitz, fundadora de um dos maiores fenômenos do Facebook, o Clube da Alice, fala sobre sua trajetória e desafios

31 de agosto de 2017 - Por: Luis Fernando Carneiro

Foto: Mariana Barcellos

Foto: Mariana Barcellos

A pergunta é muito frequente. Mônica Berlitz, criadora do Clube da Alice, volta e meia precisa explicar que não se chama Alice e que o nome vem do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Dá para entender a associação. O grupo, que foi criado há pouco mais de dois anos com poucas amigas, tornou-se um dos maiores fenômenos do Facebook no Brasil e conta com quase meio milhão de mulheres. Pelo intenso envolvimento à frente do projeto, Mônica virou referência no apoio às empreendedoras que fazem do Clube um ecossistema de indicações de serviços, compra e venda de tudo o que se possa imaginar.

Como a própria Alice da obra, ela parece ter entrado sem querer na toca de um coelho misterioso e tido acesso a um mundo de maravilhas. Como para a menina do livro, algumas dessas novidades são fáceis de entender, outras nem tanto.

A VIVER Curitiba tem a missão de compartilhar algumas das melhores histórias que acontecem por aqui, então nada melhor que conhecer um pouco mais dessa menina que nasceu em Paranavaí, veio para Curitiba com 7 anos, formou-se em Administração, já teve franquia de ginástica, trabalhou por 13 anos com estética, foi fotógrafa, produziu grandes eventos e… ufa… agora tem como missão administrar uma marca que conta com um clube de benefícios, uma loja colaborativa no Shopping Mueller e uma série de eventos, entre outros projetos.

Como essa história que parece ter saído de um livro, buscamos nos diálogos da obra de Lewis Carroll algumas frases que têm tudo a ver com a vida da Mônica Berlitz. Dá uma espiada…

 

PARTE 1: O INÍCIO

“Você não deve viver a vida como outras pessoas esperam que você viva; tem que ser sua escolha, pois quando estiver lutando, você estará sozinho…”

Entrei em um grupo do Facebook e pedi para a administradora para divulgar a revista. Um dia em uma reunião com as meninas propus que criássemos uma rede na qual cada uma daria descontos. Elas não deram muita bola, estavam mais preocupadas com a pizza depois do encontro. Ali eu descobri que eu estava no lugar errado. Depois disso, com a produtora Ivy Lemes, criei o grupo Clube da Alice no Facebook. Eu gosto de gente, de ouvir as histórias das pessoas e fui colecionando muitas amigas. Quando criei o grupo nunca pensei que poderia virar uma empresa. Fui convidando várias pessoas de áreas diferentes e a ideia era que elas escrevessem sobre suas especialidades. Pouco a pouco elas foram saindo. É claro que há um desgaste quando a pessoa deixa de participar, mas a questão é que tudo envolve muito trabalho. Tudo que está acontecendo agora é fruto de muito trabalho, de muitas privações da minha vida pessoal. Na maioria das vezes eu estava à frente, postando, respondendo, promovendo. E autoridade é algo que você constrói, não cai do céu.

 

PARTE 2: APRENDENDO A LIDAR COM GENTE

 “Como gostaria que as criaturas não se ofendessem tão facilmente!”, disse Alice. “Com o tempo você se acostuma”, disse a Lagarta.

Uma coisa que me incomoda é que ganhei muitos inimigos. Hoje em dia as pessoas não sabem ouvir um “não” e para que tudo funcione tenho que impor alguns limites. Algo que me deixou muito triste foi uma amiga de adolescência que sempre arrumava briga no grupo. Eu avisei várias vezes para parar e certa vez disse que na próxima teria que tirá-la do grupo. Como ela continuou, cumpri a promessa e perdi a amiga. Tenho que limitar discussões polêmicas e principalmente pedidos de ajuda, porque da mesma forma que muita gente acorda para trabalhar, tem gente que acorda para dar golpes. Já aconteceram situações em que pessoas foram ajudadas e não precisavam. Depois dos aprendizados, só apoiamos instituições.

Foto: Mariana Barcellos

Foto: Mariana Barcellos

PARTE 3: E GENTE É UM POUCO COMPLICADA…

“Se cada um cuidasse da própria vida”, disse a Duquesa num resmungo rouco, “o mundo giraria bem mais depressa.”

Quando o clube começou a crescer eu comecei a escutar muito a frase: “vocês aceitam qualquer um”. Mas eu sempre devolvia perguntando. “Quem é qualquer um para você, como você julga? Você me indica uma amiga e como vou julgar?”. Não é porque ela viajou para Nova York e tem a foto de capa mais bonita que ela é melhor ou pior que alguém. Até pouco tempo atrás eu não entendia muito bem o tamanho do clube, mas agora o Facebook passou a mostrar os números completos para a gente. Estamos com 411 mil pessoas ativas. Foi muito bom começar a entender quem são essas mulheres. As pessoas convivem bem porque precisam desses serviços. Por mais madame que seja a pessoa, ela precisa de uma diarista, de uma empregada, encomendar um docinho, e essas pessoas estão ali também. É muito bacana essa parte democrática do clube, que é o grande sucesso dele também. Por falar em democracia, já me procuraram para fazer parte da política, mas não me vejo fazendo isso. É sempre difícil dizer nunca, mas acho muito complicado. A política está muito desacreditada. Hoje não quero nem ser síndica do prédio.

 

PARTE 4: A REALIDADE

“Só podemos alcançar o impossível se acreditarmos que é possível”

Existem muitos casos de sucesso. Um exemplo que gosto muito é de uma menina que desenvolveu um modelo de sutiã com uma aba mais larga e já vendeu 17 mil peças pelo Clube. Hoje, pouco mais de um ano da primeira peça, ela tem 90 pessoas envolvidas na produção e está com proposta para exportar. É uma ideia simples, mas que atendeu a uma necessidade das pessoas. Tem vários casos como esse. Recentemente encontrei o Flávio Arns, da Casa Civil, e ele disse que nos encaixamos nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, como apoio ao empreendedorismo feminimo. Me senti muito honrada. Hoje, um dos meus focos é oferecer informação para as mulheres que começam a trabalhar por necessidade, mas por não terem conhecimento acabam não tendo resultados. Trabalham, trabalham e não conseguem avançar. A maior dificuldade é falar a linguagem delas. Hoje os consultores não falam a língua da menina que faz brigadeiro em casa.

 

PARTE 5: MUITO, MUITO TRABALHO

 “Antes do café da manhã, eu sempre penso em seis coisas impossíveis”

Eu tenho uma coisa de ir e fazer, não esperar. É claro que às vezes eu erro, eu reconheço, mas ainda assim eu prefiro errar e fazer a só ficar reclamando e não sair do lugar. A tendência das pessoas é só olhar as coisas que dão certo. Não conseguem entender, por exemplo, que temos uma loja no Mueller porque temos um trabalho consistente, que gera fluxo e que presta um serviço para muitas microempreendedoras. Algumas pessoas acham que tudo é sorte, nada pode ser trabalho. Qualquer pessoa pode montar um grupo de Facebook, como vieram muitos depois do Clube da Alice.

Por que esse deu certo? Sorte? Não, trabalho, envolvimento, gerando conteúdo, fazendo conexões.

 

PARTE 6: NEM TUDO DÁ CERTO SEMPRE

“Ninguém jamais conquistou alguma coisa com lágrimas!”

Claro que muitas vezes as coisas dão errado e dá vontade de jogar tudo para o alto. Mas eu procuro sempre me reinventar. Eu detesto gente que reclama. Não deu certo, vamos em frente. Eu comparo isso com meu trabalho de produção de espetáculos porque a pessoa chega no teatro e vê tudo pronto e pensa que a vida é só glamour. Só que se ela for lá à tarde ela vai ver a gente colando piso, varrendo o palco, costurando figurino. Muitas vezes as pessoas olham o teatro cheio e não sabem quantos ingressos você teve que dar para que ficasse bonito.

 

PARTE 7: A ARTE DE ARRISCAR

“Chapeleiro, você me acha louca?”, disse Alice. “Louca, louquinha! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são”.

A vida é incrível e te coloca em situações que você jamais esperava. Comecei meio que por acaso a produzir espetáculos porque meu marido é advogado especialista em projetos de incentivo. Gostei tanto da experiência e das pessoas que fazem parte desse meio que resolvi continuar. Tenho grandes parceiros nessa área e um deles é o diretor artístico Felipe Guerra. Fazemos algumas loucuras como uma vez que decidimos produzir o espetáculo Alice e o Natal das maravilhas. Nós tínhamos o patrocinador, mas ainda não havia sido aprovado o projeto pelo Ministério da Cultura. Conversamos com todos os envolvidos, que toparam ensaiar sem saber se o projeto ia dar certo. A gente tinha data no Guaíra, tinha tudo, mas não tinha dinheiro. Em novembro a gente teve a liberação do projeto e em dezembro apresentamos. Foi incrível!

 

PARTE 8: UM BALÃOZINHO DE GÁS

“Entenda os seus medos, mas jamais deixe que eles sufoquem os seus sonhos.”

O ano passado foi um ano difícil para a Lei Rouanet. Começaram a utilizar de uma forma não muito correta, o Ministério da Cultura segurou bastante os projetos e também as empresas ficaram com medo de patrocinar. As coisas convergiram para que eu pudesse dar foco no Clube. Passei a ter tempo. Mas torço para que volte porque eu amo trabalhar com isso. Eu canso só da parte burocrática. Ainda bem que conto com o apoio do meu marido nessas áreas mais complicadas. Eu sou um balãozinho de gás e ele é quem me segura.

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