A insubstituível Bela Gil

Ela fala sobre seu novo livro e como a comida pode ser uma ferramenta de transformação

1 de março de 2017 - Por: Angélica Mujahed

Foto: Sergio Coimbra

Foto: Sergio Coimbra

 

Tem quem goste, quem não goste e até quem não conheça, mas a verdade é que a Bela Gil, apresentadora do programa Bela Cozinha do GNT, tem revolucionado a maneira como muitas pessoas enxergam a alimentação. Filha de Gilberto Gil, na TV apresenta diversas receitas com ingredientes saudáveis e alguns até inusitados, principalmente para os curitibanos. Ela influencia as pessoas a pensar fora da caixinha e colocar a mão na massa (sem glúten, claro!). São inúmeros os pedidos de conselhos e dicas sobre alimentação e estilo de vida saudável em seu canal no YouTube, tantos que ela grava vídeos especialmente para respondê-los.

 

Além do programa e do canal na internet, Bela está lançando seu terceiro livro de receitas Bela Cozinha 3 – Ingredientes do Brasil, e a convite da VIVER virá a Curitiba para um bate-papo exclusivo em março. Nesta terceira edição, a culinarista quis valorizar e dar voz aos produtores, em suas palavras, “quem coloca a comida em nosso prato”.

 

Suas opiniões e atitudes, muitas vezes polêmicas, tornam-na alvo constante de comentários maldosos na internet, mas a baiana criada no Rio de Janeiro não desiste de seus ideais e quer abrir os olhos das pessoas para a importância da alimentação e do autoconhecimento.

 

Qual é o diferencial desse seu novo livro?

Quando estava fazendo a lista das receitas que queria que entrassem no livro, fui ver o final e falei: “Gente! Todas são veganas e sem glúten!”. Foi uma grande coincidência e se tornou uma boa opção para esse público que muitas vezes tem uma carência de livro de culinária, então achei que seria interessante. Por outro lado, ele não é excludente. Um carnívoro não precisa achar que não é para ele, porque as receitas são gostosas e independentemente de sua filosofia alimentar, a base de uma dieta deve ser os vegetais. Nessa edição também quis dar mais voz aos produtores da nossa comida e valorizar os ingredientes que encontramos aqui no Brasil.

 

Tem algum ingrediente do Paraná?

Nesse não! Ainda não. No próximo vai ter uma farofa de pinhão que ficou muito maravilhosa.

 

Como era sua alimentação na infância? Você comia muito doce e comidas gordurosas?

Eu continuo comendo doce e gordura, mas acho que a gente muda a quantidade, a frequência e a qualidade. Gordura não é ruim, depende da quantidade que você come e que tipo de gordura você come. Mas lá em casa a gente sempre teve uma alimentação saudável, com alimentos frescos, verduras e legumes, mas eu podia comer de tudo. Comia brigadeiro, coisa que hoje não como, por exemplo. Na adolescência, até os 14/15 anos, comia fast-food, mas tinha esse cuidado que veio dos meus pais.

 

Quando você começou a tomar consciência do papel da importância da alimentação?

Foi bem nessa época, com 14 para 15 anos quando eu comecei a praticar ioga e percebi que meu corpo passou a rejeitar alguns produtos, como açúcar e carne vermelha. Comecei a perceber que a comida afetava meu bem-estar. Por isso quis estudar como a alimentação impacta nossa vida. Foi quando despertei para uma alimentação saudável.

 

O cuidado com a alimentação começou com o pai, Gilberto Gil (Foto: João Franco)

O cuidado com a alimentação começou com o pai, Gilberto Gil (Foto: João Franco)

 

Acredita que as pessoas estão se preocupando mais com o que comem?

Eu acho que sim. Em vários aspectos. Mas depende muito do grupo de pessoas que estamos falando, de quais regiões, e tudo mais, mas acredito que sim, elas estão se preocupando mais com a alimentação com relação à saúde. Vejo o crescimento do veganismo e vegetarianismo e a preocupação com os animais. Essa produção em escala industrial tem um impacto negativo no meio ambiente e no bem-estar animal, e as pessoas estão querendo entender mais sobre isso.

 

De onde vem suas inspirações para criar novas receitas?

De experiências passadas, da infância, de um bolo que minha avó fazia, por exemplo, eu pego a receita dela e transformo. Além das viagens. Nova York me influenciou bastante porque lá aprendi a comer muita coisa que não comia, como pimenta. Uma baiana que não gostava de pimenta! Aprendi a comer comida mexicana e indiana, que é apimentada. A cidade me influenciou e influencia porque é muito cosmopolita. Você encontra de tudo lá, comida de todas as etnias, e isso me ajudou a abrir meus horizontes.

 


Leia também: Bela Gil vem a Curitiba para bate-papo e noite de autógrafos


 

Como é a alimentação dos seus filhos?

Eles comem superbem. O Nino mama no peito ainda, começou a comer agora e está adorando. Mas a Flor tem uma relação supersaudável com a comida. Ela ama comer e vai do suco verde ao brigadeiro, digamos assim. Em casa ela sabe que não tem brigadeiro, que não entra refrigerante  nem produtos ultraprocessados. Em festa dos colegas, por exemplo, ela come brigadeiro sim. Mas refrigerante nunca tomou, nem tem curiosidade, porque não faz parte da vida dela. Tento tratar a alimentação de maneira natural com minha filha, quero que ela entenda que o que praticamos em casa é o normal, o natural. Ela não é diferente. Os outros que estão comendo de maneira maléfica à saúde.

 

Você abre exceções com relação à alimentação de vez em quando? Por exemplo, família reunida no Natal, você come o mesmo que todos ou leva sua própria comida?

Em casa não comemos carne, então no Natal é complicado porque a maior parte da comida é carne. Mas comemos farofa, arroz, salada, sempre tem alguma coisa que dá para comer. Mas se é um almoço que eu sei que não vai ter nada que eu gostaria de comer eu levo. Depende muito da situação.

 

Teve algum comentário na internet que te fez repensar suas escolhas?

Não. Ainda não. Recebo comentários muito infantis do tipo: “não gosto disso”, “não gosto de você”, são críticas muito vazias, sem embasamento real. Então isso não me afeta. Por outro lado, eu adoro críticas construtivas, adoro conversar, dou palestras, gosto de perguntas, polêmicas e dilemas que as pessoas me trazem, dúvidas que geram discussões bacanas, isso acho maravilhoso. Mas nas redes sociais as críticas são vazias, não tem nem como eu dar ouvidos.

 

Teve algum meme que você riu junto?

Vários! Eu adoro os memes. Tinha um da linhaça, do inhame… Lembro uma vez quando o WhatsApp saiu do ar e falava: “Você pode substituir o WhatsApp por pombo correio”. Esses do “Você pode substituir” são campeões.

 

Foto: Sergio Coimbra

Foto: Sergio Coimbra

 

Como você se define? Considera-se radical?

Eu acho que não. Para chegar onde estou já fui bem mais radical com relação à alimentação e comportamento. Hoje eu achei o equilíbrio, mas acredito que quando temos um ideal, um objetivo, precisamos trabalhar para preservar isso. Acredito que a gente não precisa ser radical com relação ao que come. Não existe comida proibida, existe falta de autoconhecimento, entender o que é bom e o que não é bom para você e saber quando e como você deve comer. Açúcar não é um vilão, o problema é a quantidade que ingerimos. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda 25 g de açúcar por dia e numa lata de refrigerante tem 35 g, então já é muito a mais do que você deve consumir no dia. Esse abuso que é o problema, não o açúcar, o carboidrato, a gordura, o problema é a quantidade e como é produzido. Quero levantar essa bandeira e abrir os olhos das pessoas para isso, para esse autoconhecimento. Uso a alimentação como uma ferramenta de transformação. Eu sou radical num objetivo, mas não no comportamento. Acho que é mais uma questão de ideal e vou lutar por ele.

 

Acredita que todas as pessoas em qualquer lugar do país podem encontrar os ingredientes que você usa em suas receitas?

Eu acho que não, até porque seria bastante errado se isso acontecesse. O Brasil é diverso e com regiões diferentes. Uma comida que você encontra com facilidade no Paraná não consegue encontrar na Bahia, por exemplo. Mas eu acredito na criatividade das pessoas e na capacidade de usarem os produtos que encontram para adaptar minhas receitas. O importante é saber o que você tem à sua volta e fazer o melhor uso daquilo. Gosto de mostrar comidas que para nós são novas, mas que para os nossos avós eram corriqueiras. O inhame, o fubá, por exemplo, talvez uma criança agora não conheça. Quero mostrar isso, que a pessoa tenha noção de que devemos comer comida de verdade e não coisas que vêm em pacotinho. Acho que podemos comer bem pelo Brasil todo, mas não necessariamente que vamos comer a mesma comida de norte a sul, que é o que a industrialização fez. Essa padronização é uma das maiores culpadas pela obesidade.

 

No seu canal no Youtube têm diversos comentários de mulheres pedindo dicas, desde alimentação até creme antirrugas natural. Como lida com isso? Responde a todos?

Eu coloco uma vez por mês uns vídeos respondendo a esses comentários, fica mais fácil. Sinto-me à vontade para responder tudo que eu relaciono a um estilo de vida mais natural e saudável. Como eu faço meu desodorante e minha pasta de dente é natural para mim.

 

Você já conhece Curitiba? O que achou da cidade?

Acho uma cidade muito linda! Limpinha e organizada. Do avião dá pra ver todas as casinhas e parece uma maquete. Já fui três vezes e a última foi para lançar meu último livro. Um lugar que me marcou foi o Teatro Guaíra. É muito lindo! Eu fui ao show do meu pai, era bem pequenininha.

 

Recentemente houve uma discussão no Twitter envolvendo a Rita Lobo. Ela disse que medicalizar a alimentação é um distúrbio. Qual sua opinião sobre isso?

Eu penso como Hipócrates: “Que seu remédio seja seu alimento”, então eu acredito na medicalização da alimentação nesse sentido.

 

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