Maitê Proença fala sobre liberdade, literatura e desafios

Fazer um texto sobre a atriz a partir de apenas uma entrevista é correr o risco de se revelar superficial

3 de abril de 2016 - Por: Redação


É dura a vida de jornalista. Ter de fazer um texto sobre a Maitê Proença a partir de apenas uma entrevista é correr o risco de se revelar superficial. Mesclar fatos com impressões é sempre um grande risco, mas já que essa foi a missão dada, farei o possível para cumpri-la à altura da entrevistada. Para não errar, falarei da minha Maitê, aquela que só eu vejo.

Talvez o seu grande diferencial é que ela reconheça sua beleza, mas nunca tenha se olhado tão fixamente a ponto de virar pedra. Ao contrário, arrebatada muito cedo para uma vida incomum entregou-se de corpo e alma e a fez valer a pena. Viajou o mundo, conheceu gente de todas as cores e credos, novos sons, sabores, impressões e decodificou, ou pelo menos tentou decodificar tudo. Tornou-se atriz e conseguiu expressar um pouco daquilo que viu e que que viveu em personagens ricas, engraçadas, profundas, que falavam muito mais que aqueles lindos olhos azuis. Acredito que todos tenham uma “Maitê” preferida. Para mim, é aquela da professora Clotilde em o Salvador da Pátria, resgatando a dignidade do Sassá Mutema, vivido por Lima Duarte. Lá se vão 25 anos e ainda me lembro exatamente da forma doce e encantadora que ela olhava para ele. De certa forma também fui hipnotizado, entendendo que a verdade daquela cena era uma verdade que tinha bastidores, que só poderia vir de alguém que entendia de gente. Outras “Maitês” foram se apresentando ao longo da minha vida, como aquela que se despojou da roupa e de muito mais em 1996 para edição de aniversário da revista Playboy num dos mais belos ensaios que já vi, feito por Bob Wolfenson na Sicília. Sim, Maitê entendia de gente.

Ela fez filmes, novelas, peças de teatro e em 2003 ela se reinventou e começou a escrever crônicas para a revista Época. Como assim, uma mulher linda e famosa ainda escreve?  O que para alguns era preconceito para mim era confirmação do talento. A coluna puxou o primeiro livro e já tenho mais dois de Maitê na estante. Afinal, escrever é se revelar com inteligência e elegância e isso ela sabe fazer como ninguém. Mostra só o necessário, como fez em Uma Vida Inventada, no qual mistura vida real com ficção e nos deixa sempre com uma dúvida gostosa do que é mesmo verdade naquelas falas.

O que mais gosto na Maitê é que ela consegue ser tudo isso sem deixar de ser uma mulher real, se revelando em seu livro e algumas de suas crônicas confusa e complicada como se muitas pessoas morassem dentro daquele pequeno corpo e quisessem se expressar ao mesmo tempo. Qual mulher não se identifica com esse “sobe-e-desce emocional”?

Acho que essa Maitê que apresentei tem muito da Maitê real, mas assim como no livro, nunca saberemos qual destas afirmações é realmente a verdadeira. A única coisa da qual tenho certeza é que, à beira do abismo ou não, só nascem asas em quem faz por merecer.

Foto: Divulgação/Cristina Granato

Foto: Divulgação/Cristina Granato

Essa Maitê criativa, inteligente e de personalidade foi moldada por essa necessidade de superar desafios?

Não tive muita escolha, os momentos difíceis me atropelaram numa sequência brutal e contínua. Sou feita do mergulho que dei nelas e dos dribles que fui aprendendo pra levar o dia a dia sem que me esmorecesse o amor e o entusiasmo. Porque disso eu tenho sobrando.

A perda de foco em meio a tantas demandas é a grande questão atual. Como você se organiza para coordenar seus projetos com a qualidade e a profundidade que eles merecem? 

Mal. Fico bastante atordoada porque invento coisas demais e sou perfeccionista. Tento me alimentar bem, busco sorver os momentos estando neles por inteiro, desligo o celular várias vezes ao dia, evito o trânsito e deixo de fazer inúmeras coisas que impliquem em mais desgaste que prazer. No fim do ano, depois do lançamento do livro, viajo para o Sri Lanka com minha filha por vinte dias.

Um ator está sempre interpretando o texto de alguém. Escrever foi seu grito de liberdade, uma maneira de apresentar ao seu público quem você realmente é? 

Houve um momento em que ficou difícil ser atriz, estava empacada num ponto pouco criativo, funcionava para fora, mas para mim era frustrante oferecer menos do que me sentia capaz. Precisei experimentar outra forma de expressão que me levasse aos meus porões, por um processo de escavação duro e verdadeiro. Quis chegar no cerne, lá no único lugar que interessa pra uma buscadora. A escrita foi útil, porque não se cria nada que preste a não ser que se saia deste lugar escondido e protegido. É lá que se vai para colher as palavras. Quando voltei à minha atriz, ela já era outra, melhor e mais interessante.

Como você se define? E como a literatura lhe ajuda nesse processo? 

Sou uma buscadora. Olho pra tudo e tudo me interessa e me modifica. Sou muito diferente hoje do que fui aos vinte justamente por isso. Uma conversa de botequim por mais interessante, se transcrita, não vira literatura, nem a história mais louca que alguém possa ter vivido. Literatura é o que você faz daquela história louca. E para encontrar a sua forma é preciso garimpar. Nisso a gente às vezes encontra preciosidades.

No seu primeiro livro a personagem confessa que há um um congestionamento dentro de si. Me parece que esse é um dilema que faz parte da maioria das mulheres. Qual a solução para conter ou pelo menos conviver com esse furacão? 

Olhar pra dentro.  Tirar tudo da gaveta, espalhar, jogar fora o que não presta, e rearrumar.  Só que quando tudo parecer arrumadinho está na hora de começar de novo.

Na sua peça as duas personagens falam sobre a vida, perdas, amor, relações com bom humor. Rir de si mesmo e do mundo é o melhor remédio? 

As pessoas dizem que sim, mas não fazem, não tem o fairplay necessário. Fairplay é como meditação, é preciso treinar. Os monges dizem que fica fácil e espontânea com o exercício. O humor para o trágico também é assim, a gente treina e uma hora ele acontece sem esforço. E a autopiedade vai para o lugar dela: o lixo.

Qual é hoje seu principal hobby? O que faz para se divertir?

Como estou em turnê eu conheço as coisas locais. Estive em Fortaleza e Belém esta semana, na primeira visitei a Universidade de Fortaleza que tem um campus extraordinário, com emas e bichos exóticos passeando soltos entre as árvores amazônicas, lojas, academias, biblioteca expressiva, o teatro em que nos apresentávamos, e uma galeria com um acervo de arte moderna muito impressionante adquirido pelo empresário visionário Edson Queiroz. Também fui a uma praia deserta, e aviso que elas vão acabar porque a especulação imobiliária descontrolada está tratando disso com uma velocidade espantosa. Em Belém estive às 2 da manhã no porto onde chegam os peixes de rio pra serem distribuídos e as frutas exóticas deliciosas, fui ao Restaurante de degustação do chef Thiago Castanho elogiado por Claude Troisgros e Alex Attalla, e ao Tacacá da Maria que serve essa espécie de caldo feito na hora na calçada.

E no Rio?

Eu descanso, leio, pedalo, vou à praia bem cedo, evito todo local em que possa ser fotografada, não aguento mais tirar foto! A pessoa pública agora passa a vida posando e não consegue mais olhar ao redor, tem que ficar sorrindo pra pessoas que nem olham, mas pra gente, só pra foto que tiraram. A representação ficou mais importante do que o representado. A cópia é mais valorizada do que o autêntico. Tô fora! (Mas também tô dentro, porque não sei como sair).

“A vida só é possível reinventada”, recomendou Cecília Meireles. Você atingiu o sucesso muito cedo e se reinventou muitas vezes. Pode nos dar alguma dica de quais são seus próximos desafios? 

Meu único desafio é manter o entusiasmo, aquela coisa que vibra dentro e se deixa sensibilizar. Com isso eu caminho e vou inventando um monte de coisa, coisa demais.  Mas isso traz saúde. E não deixa engordar! (Risos)

Alguma história bacana vivida em Curitiba?

Já nos apresentamos com essa peça em Curitiba e foi das melhores plateias que tivemos! O querido genial Jaime Lerner esteve entre o público que nos assistiu.

Mas em Curitiba tive dois momentos com o Dalai Lama completamente incomuns, um deles durante uma palestra dele no Palácio de Cristal, outro numa apresentação de que também participavam o Gil e A Elba e eu fazia a introdução dele ao palco. No dia seguinte dessas duas experiências eu tomei café da manhã com Dalai e desse momento guardo até hoje o hábito de tomar água quente pura ao acordar. Já se vão uns 20 anos.

A VIVER faz parte da campanha de prevenção ao câncer de mama. Qual o melhor caminho para transformar informação em atitude?

O inconformismo. Estimule-o. Até porque, ajudar outro faz mais bem pra quem pratica do que pra quem recebe.

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