Navegar é preciso: Os 20 anos da Porto a Porto

Pedro Corrêa de Oliveira comemora os 20 anos da Porto a Porto e fala sobre a evolução da enogastronomia nesse período

13 de setembro de 2018 - Por: Redação

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Da água para o vinho. A expressão é perfeita para retratar a transformação que aconteceu na gastronomia e no consumo de vinhos nos últimos 20 anos no Brasil.
A empresa curitibana Porto a Porto fez parte desse movimento que nos aproximou dos melhores rótulos do mundo e celebra duas décadas de existência com os olhos no futuro. Nesta entrevista, Pedro Corrêa de Oliveira conta como venceu crises, altas do dólar e os desafios de empreender para se tornar um dos maiores importadores do país. Como ele mesmo descreve, foi “colocando o barco na água na base da persistência” que a equipe se uniu e a empresa se consolidou.

 

COMO TUDO COMEÇOU?

Em 1998 saímos do ramo varejista, no qual minha família trabalhou desde 1917, e fundamos a Porto a Porto. Mudamos de lado da mesa, ao invés de sermos varejistas passamos a fornecer aos varejistas. Quem sugeriu o nome da empresa foi minha tia Dora, esposa do tio Rui, nosso cofundador e ex-sócio, e foi uma escolha muito feliz.

 

APESAR DE JÁ TEREM CONHECIMENTO NO MERCADO, O COMEÇO FOI DEVAGAR?

Começamos em um escritório na pracinha do Batel, com quatro pessoas, basicamente para Paraná e Santa Catarina, depois expandimos para outros estados. Na época, tínhamos uns 15 ou 20 rótulos e uma representada, que era dos vinhos Caves Messias, embora o Messias ainda tivesse cinco ou seis importadores no Brasil. Também começamos a trabalhar com uma marca de azeite italiano que hoje não trabalhamos mais, que foi o nosso primeiro contêiner que chegou ao país.

QUAL O CENÁRIO DE CURITIBA NESSA ÉPOCA?

Há 20 anos havia um grande ícone na gastronomia, que era o Restaurante Boulevard, do nosso amigo Celso Freire e da família Feliz. Se você não vendesse vinho para o Boulevard não vendia para ninguém. O Mercado Municipal estava começando a trabalhar com vinho. Além disso, eram dois os principais restaurantes italianos em Curitiba, em termos de venda de vinho: o Bolonha e o Fabiano Marcolini, no Shopping Estação. Para se ter uma ideia, quando a gente abriu a Porto a Porto existia um Bar do Victor, uma Pizzaria Baggio e não havia Madero. Outros tempos.

 

QUAL FOI O PONTO DA VIRADA?

Crescemos muito a partir de 1999, quando compramos outra importadora sediada em Curitiba. Eles importavam uma marca italiana de vinho muito conhecida no mercado e com ela veio um fundo de comércio que já tinha clientes no Brasil inteiro. Incorporamos funcionários, estoque, clientes e até dois cachorros, o Prosecco e o Bardolino.

 

COMO ASSIM “DOIS CACHORROS”?

Compramos a empresa, fomos busca a mercadoria, trancamos os cachorros, colocamos tudo no caminhão e levamos. De repente, um dia liga um senhor, “olha, vocês têm que levar os cachorros”. Como assim levar os cachorros? Aí que nos avisaram que os cachorros estavam no pacote (risos). Depois, felizmente conseguimos doar os cachorros para um pessoal que tinha uma chácara. Até porque só o Flávio Bin, que veio trabalhar conosco na época, conseguia fazer o Bardolino parar de latir.

QUAL FOI O MAIOR ACERTO NESSA TRAJETÓRIA?

Não tenho dúvida de que foi o contato direto com os clientes e a nossa persistência.

 

E UMA FALHA QUE TEVE QUE SER AJUSTADA?

Tivemos muitas falhas, mas a principal foi a falta de foco no início. Quando montamos a empresa éramos acostumados com o mercado varejista, que é generalista. Quando montamos a Porto a Porto não seguíamos nossa vocação enogastronômica. Tínhamos uma linha de não alimentos com muitos produtos de bazar.

 

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E COMO TUDO FOI EVOLUINDO?

Gradativamente a empresa foi ficando madura, fomos cortando mix e direcionando para a nossa vocação. Aí veio a crise de 2002, que fez o dólar sair de R$ 1,40 para R$ 4. Tivemos que ter muita coragem para manter a empresa aberta. Nosso sócio desistiu do negócio e perdemos algumas representadas. Se vendíamos 30 ou 40 contêineres de mercadoria, com o dólar assim começamos a vender dez. Nenhum produtor europeu entendia como a economia brasileira tinha encolhido tanto em tão pouco tempo. Foi um momento difícil, botamos o barco na água com base na persistência, mas estruturamos a empresa e graças a Deus estamos aí completando 20 anos de existência.

 

A LIÇÃO É QUE COM CRISE SE FICA MAIS ESPERTO?

Com certeza. Nessa época fizemos uma parceria com a importadora Casa Flora. Eles assumiram nossa distribuição em São Paulo e nós gradativamente assumimos a distribuição fora dessa área. Com isso, acertamos o mix de ambas as importadoras, começamos a trabalhar de forma integrada e isso virou um case em que duas empresas distintas começaram a trabalhar juntas com o mesmo mix em várias áreas do Brasil. Dessa forma, maximizamos as vendas e dividimos as despesas. Hoje somos sócios em duas empresas: a Veloz Distribuição, em Recife; e a Veloz Logística, uma empresa de distribuição.

A QUESTÃO É IR VENCENDO OS DESAFIOS…

Eu gosto muito de desafios. Chega um momento em que você está crescendo dois dígitos e acha que esse crescimento vai ser perene. Até uma hora que para de crescer. Nessa hora é preciso fazer a análise do mercado, o que está certo e o que precisa mudar.

 

QUAL É O MOMENTO DA PORTO A PORTO?

Estamos passando por um momento de profissionalização da empresa, com governança corporativa, criamos um conselho nosso, enfim, estamos preparando para a Porto a Porto da próxima década.

 

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E COMO VAI SER?

Estudamos várias possibilidades de novos negócios.

 

TEM ALGUMA PISTA?

Ainda não. Mas hoje, em conjunto com a Casa Flora, temos mais de 10 mil clientes ativos. Existe, portanto, um canal de distribuição muito forte. Se você agregar alguma novidade neste canal, a probabilidade de dar certo é muito grande.

 

QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS MARCAS QUE A PORTO A PORTO TRABALHA?

Temos a tradicionalíssima Caves Messias, que está no Brasil desde 1944; a chilena Santa Carolina; a argentina Nieto Senetiner; a Cava Don Román e a linha de produtos gourmet da italiana Paganini; entre inúmeras outras.

A IMPORTAÇÃO DA PAGANINI É UM CASE DE SUCESSO?

Sim, sem dúvida. Somos líderes de mercado em diversas categorias de produtos italianos. Temos hoje mais de 20% de share para arroz italiano, ou seja, de cada cinco quilos vendido no Brasil, um é nosso. Aceto balsâmico, nós temos 24%. Para cada quatro litros consumidos, um é nosso. São só dois exemplos em uma marca que conta com mais de 80 produtos.

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COMO O CONSUMIDOR SE TRANSFORMOU NESSES 20 ANOS?

A imprensa especializada se transformou, as escolas de gastronomia tiveram um crescimento impressionante e o número de importadores cresceu bastante também. Todos esses fatores contribuíram para que o consumidor apreciasse gastronomia e vinhos.

 

E A TECNOLOGIA MEXEU COM O SETOR?

Os hábitos de compra mudaram bastante por conta da internet. Com isso, estamos também muito atentos à tecnologia. Temos um projeto piloto de reposição contínua para os restaurantes que será pioneiro no Brasil.

E SUA ATUAÇÃO TAMBÉM MUDOU?

As coisas vão tomando outros rumos com o passar do tempo. Comecei a delimitar espaços das pessoas e também o meu, passei a analisar e cobrar resultados e não participar tanto do operacional. No começo é difícil, mas é muito melhor para a empresa. Acho que a Porto a Porto da próxima década vai ser muito melhor que a de hoje.

 

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