O porquê Curitiba é uma cidade inovadora

De braços abertos para mudanças, Curitiba transformou sua paisagem e o estilo de vida dos cidadãos

29 de junho de 2016 - Por: Thaynara Oliveira

Você sabia que a XV de Novembro foi a primeira via pública no Brasil destinada à circulação exclusiva de pedestres? O italiano Giuseppe Bertollo, ou Beppi, lembra-se muito bem dessa mudança, que transformou a região central em maio de 1972, quando o primeiro trecho da chamada Rua das Flores foi interditado para automóveis. Beppi desembarcou em Curitiba em 1948, quando tinha 20 anos, e construiu sua vida aqui tocando em orquestras ou na banda que leva seu nome. O músico guarda com carinho na memória o tempo em que a rua era uma passarela para os carros importados e os cinemas eram a principal atração da região, e acredita que as mudanças na cidade são algo natural.

Se em 1972 a cidade já dava seus sinais de que era aberta a inovações, isso só se concretizou porque os curitibanos conseguiram se adaptar às mudanças e souberam valorizá-las. “Não acho que tem que reclamar. O calçadão, por exemplo, foi trazido da Europa. O pessoal descobre as coisas que dão certo lá e vem fazer aqui, é normal”, afirma Beppi. Para o consultor e fundador da Escola de Criatividade, Jean Sigel, essa aceitação da população é essencial para uma cidade se renovar. “Grandes revoluções e desenvolvimentos em importantes centros urbanos no mundo se deram por meio de fortes mudanças feitas por aqueles que tiveram coragem de fazê-las, mas também por aqueles que tiveram coragem em aceitá-las e adaptar-se a elas.”

Mudança de hábito

Mais de 40 anos se passaram e as novas gerações de curitibanos continuam a ver a cidade se transformando. Laura Bertollo, filha de Beppi, é professora e passa diariamente por trechos da Área Calma, um espaço de aproximadamente 140 quadras do Centro com velocidade máxima de 40 km/h, quando vai trabalhar. Essa iniciativa, que enfrentou resistência de algumas pessoas no começo, já vem mostrando resultados como a redução de 28,9% dos acidentes e nenhuma morte desde que foi implantada. Para os moradores do centro isso significa mais tranquilidade e qualidade de vida.

“Eu acho que tudo que vem para melhorar a vida da população é muito positivo. O importante é viver melhor e fazer com que o outro viva melhor. Aqui na região eu lembro que toda semana tinha acidentes, gente que furava o sinal vermelho. Ainda mais aqui na esquina, que é um local que tem bastante fluxo de carros”, conta Laura. Segundo a professora, reduzir a velocidade já é algo natural para ela, mas existem muitas pessoas que não obedecem à sinalização. “Acredito que para a Área Calma funcionar é preciso um respeito mútuo entre pedestres, ciclistas, motoristas. Existem muitos pedestres que atravessam fora da faixa ou quando o sinaleiro está fechado para eles.”

Para o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), Sérgio Póvoa Pires, o objetivo da Área Calma é justamente fazer com que todos convivam em harmonia no trânsito. “Quando você é um pedestre, você vê de um jeito, quando você usa o carro, é outro, no ônibus é outro e o ciclista é outro. O que a gente está propondo é que todos eles assinem um acordo de paz.” A redução da velocidade, segundo Sérgio, é apenas o primeiro passo. “Se for comparar com outros modelos no mundo a Área Calma não é uma novidade, mas o que ela está fazendo com os hábitos dos curitibanos é, sim, uma inovação. Reduzir a velocidade para 40 km/h implica também a criação de lugar mais tranquilo, mais gostoso para viver, para trabalhar, para ter momentos de lazer.”

Comportamento_Curitiba inovadora_Fotos Prafrentex

Comportamento_Curitiba inovadora_Quadro Prafrentex

Está no gene

Por trás do desenvolvimento de iniciativas como a Área Calma, estão vários órgãos públicos da cidade. Entre eles, o IPPUC que nasceu em 1965, na gestão do então prefeito Ivo Arzua, com a responsabilidade de cuidar do Plano Diretor que estava em processo de aprovação e realizar o Planejamento Urbano da cidade. Desde então, Curitiba segue o mesmo Plano Diretor e essa longevidade é única no Brasil. Para o atual presidente, Sérgio Póvoa Pires, a criatividade está no DNA do instituto. “Aqui a gente gosta de dizer que 1+1+1 não são 3, são 111. Com esse princípio, você adota um outro jeito de pensar e de fazer as coisas. Isso desde o nascedouro, lá atrás quando o IPPUC foi fundado, e com todas as pessoas que vieram depois, cada uma em sua área de atuação.”

Esse “gene da criatividade” não é reconhecido apenas aqui, mas também fora do Brasil. Nos últimos anos Curitiba entrou para a Rede de Cidades Criativas da Unesco no segmento de design, além de ter ganhado vários prêmios. Segundo Sérgio, uma cidade inovadora, além garantir mais qualidade de vida para seus habitantes, é um chamariz importante para atrair bons cérebros. “Porque as pessoas, principalmente o pessoal da economia criativa, procuram lugares onde possam morar perto do trabalho, se deslocar de bicicleta, ter um lugar para ouvir jazz. Curitiba tem atraído muito esse tipo de pessoa.”

Sérgio Póvoa Pires, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), afirma que a criatividade está por trás de todas as ações de mobilidade na cidade (Foto: Luiz Augusto Costa/SMCS)

Sérgio Póvoa Pires, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), afirma que a criatividade está por trás de todas as ações de mobilidade na cidade (Foto: Luiz Augusto Costa/SMCS)

Sempre à frente

Mas o que faz Curitiba ser uma cidade criativa? Segundo Jean Sigel, primeiramente as pessoas e em segundo lugar a diversidade. “Curitiba é uma mistura de povos, etnias, línguas e histórias. Grandes centros urbanos criativos em todo o mundo se desenvolveram essencialmente pela mistura de gente, experiências e troca de conhecimento.” Para o consultor de criatividade, a cidade é um terreno fértil para inovação por apostar em cultura, tecnologia, mobilidade, conhecimento, universidades, negócios, sustentabilidade, lazer e no bem-estar da população.

Confira o VÍDEO da VIVER Curitiba com Jean Siegel sobre as mudanças na cidade

Glavio Paura, representante da Universidade Positivo na comissão de avaliação de novas tecnologias da Setran (Secretaria de Trânsito de Curitiba) afirma que Curitiba está um passo à frente de muitas cidades. “Mesmo com todos os problemas que afetam o país em geral, ela é uma cidade que busca sempre implantar propostas que privilegiem a qualidade de vida, isso significa privilegiar o cidadão e não o seu veículo.”

Comportamento_Curitiba inovadora_Dicas

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