Semear é preciso

13 de novembro de 2012 - Por: Redação

No mês em que os professores são homenageados, nada melhor que conversar com Vera Miraglia, que aos 80 anos continua acreditando na força da educação e da família

POR Luís Fernando Carneiro | FOTOS Fer Cesar

 

Misto de firmeza com carinho, de inspiração com transpiração, há 50 anos Vera Miraglia faz muito mais do que dar aulas. À frente da tradicional escola Anjo da Guarda, ela faz do magistério um sonho realizado, construído sobre as bases de princípios como respeito, autonomia e criatividade.

Desde muito cedo aprendeu que sua principal missão era semear. Hoje, aos 80 anos, continua ensinando e se divertindo com as crianças, acreditando que elas e suas famílias são um solo fértil que precisa e merece o melhor.

Nascida no Rio de Janeiro, numa tradicional família de educadores, viu a avó fundar o colégio Jacobina. Trabalhou alguns anos por lá e, depois de se casar e vir para Curitiba, recebeu o convite para assumir um jardim de infância à beira da falência.

Meio século se foi, algumas gerações passaram por suas salas de aula, e quando pensamos que a professora Vera está satisfeita, nos deparamos com ela, agitada, indo em direção ao pátio para mais uma reunião com os Curupiras, seu grupo de alunos defensores da natureza. É hora de plantar mais sementes.

 

Como foi sua primeira experiência em educação?

Foi no colégio Jacobina, no Rio, que era fantástico, porque a minha tia estudou na França e na Suíça e para você ter uma ideia foi colega de (Jean) Piaget. Essa experiência foi fundamental para que ela trouxesse ao País uma visão mais ampla em educação. Acho que a primeira grande lição que tive é de que aluno não é uma mercadoria. É uma pessoa que precisa de uma informação e de uma forma alegre de aprender.

 

E aqui em Curitiba?

Em 1962, fui convidada pelo frei Álvaro Machado para assumir o Jardim de Infância Anjo da Guarda, que tinha como objetivo maior financiar as aulas de catequese. Ele falou que a escola estava montada e que bastava apenas que eu assumisse. A única coisa que ele esqueceu de dizer é que havia apenas quatro alunos. Mas a gente foi em frente, dali a pouco já eram 20, e fechamos o ano com 60 alunos.

 

Como foi esse começo?

Naquela época, muita gente dizia que um projeto pedagógico como esse não seria viável em uma cidade conservadora como Curitiba. No começo os pais reclamavam que seus filhos andavam descalços, brincavam com areia, tinta e chegavam sujos em casa. Mas, passado algum tempo, as famílias foram percebendo onde a gente queria chegar.

 

E a senhora se viu dirigindo uma escola de uma hora para outra?

Sim, já tínhamos 60 alunos quando o frei disse que não tinha condições de pagar as professoras. Ao assumir o desafio, tive a ideia de oferecer ao então governador Ney Braga uma experiência nova para Curitiba. O município emprestava professoras, que aprendiam na prática comigo, e depois retomavam seus postos e multiplicavam uma educação de qualidade. Com isso nos mantivemos por um tempo importante e todos ficaram felizes.

 

Nesta hora falou mais alto a sua veia empreendedora… 

Sim, tive que ir à luta para manter o sonho. As pessoas diziam: “Você vai falar com o governador, não vá de sandálias, se arrume melhor”. E eu dizia: “Mas eu não vou falar de moda, vou falar de educação, é uma coisa completamente diferente!” (risos). Ele aceitava ou não, parecia-me uma coisa simples. E não é que ele aceitou?

 

E dali em diante o tempo se encarregou de trazer novos alunos?

Tempo e um trabalho consistente. Ficamos muito tempo apenas com o Jardim e quando minha irmã veio morar aqui em Curitiba assumiu o Primário. Depois de um tempo ela se mudou para São Paulo e eu continuei o trabalho. Após as crianças crescerem, fomos até oitava série.

 

Educação só é possível com rigidez? 

Acho que não só com rigidez, mas é um mal necessário. Limites e cobranças não são coisas agradáveis para ninguém, mas com o passar do tempo os próprios alunos entendem que isso é muito importante para eles. Procuramos também oferecer condições para que eles tomem suas decisões e se comprometam com projetos. Desta forma fica mais fácil cumprir as regras e assumir responsabilidades.

 

O que é preciso para uma educação completa?

Respeito. A gente tem um lema, que diz: “Eu sou alguém, eu respeito os outros, quero que me respeitem”. Baseado neste lema a gente constrói todas as relações necessárias para se educar crianças e adolescentes.

 

As famílias são importantes neste processo, não?

Com certeza. A participação dos pais é fundamental. Quando ensinamos sobre respeito, sabemos que isso é uma consequência do que a criança recebe em casa, dos seus pais e do universo no qual está inserida. Se os pais amarem seus filhos, metade do caminho já está percorrido.

 

Amar os filhos… mas isso não é um pouco óbvio?

Acho que não. Acredito que hoje as pessoas se preocupam muito em “lidar” com os filhos. E “lidar” com os filhos acaba se tornando uma coisa penosa. Mas se você gostar de estar com seu filho, sua visão muda completamente. Amar dá trabalho, realmente. Mas só porque dá trabalho não quer dizer que tenha que ser algo pesaroso. Os pais devem lembrar que precisam ter prazer em estar com os filhos. Isso faz parte da nossa razão de ser, a coisa mais preciosa que temos. Isso é colocar o foco no prazer e não nos sacrifícios que a paternidade nos impõe.

 

Já pensou em desistir alguma vez?

Não, nunca. O pecado é que agora eu sei que não posso mais dar aula. Vejo que já não é bom para os alunos ter uma vovó em sala de aula. Mas para mim é uma pena! Gostaria de continuar até o fim da vida. Procuro estar com os alunos, gosto de passar alguns valores, trabalhar com os representantes de turmas e trabalhar com os Curupiras, um grupo que, como a figura folclórica, defende o verde. Se eu conseguir fazer essa semente germinar entre os alunos, tenho certeza de que estaremos contribuindo para um mundo melhor.

 

E a preocupação com a continuidade?

Tenho uma equipe fantástica que já está dando continuidade em tudo o que acredito. A organização da nossa direção é um pouco diferente. Por aqui, tudo é integrado, todos fazem parte do pedagógico. Senão eles perdem a noção e a escola vira só um negócio. A minha filha, que é diretora financeira, é professora de Matemática. Com isso, ela vê na prática que não se pode ter muitos alunos em sala porque a qualidade do trabalho cai consideravelmente. É assim que ela e os demais membros da administração têm a visão pedagógica do negócio. Isso é uma coisa linda!

 

A esta altura do caminho, resta algum arrependimento?

Se eu soubesse que as coisas se resolveriam de uma forma ou de outra, eu teria sido mais simpática e menos brava, mas só posso dizer isso com 80 anos. E quem garante que não foi essa brabeza que me trouxe até aqui, dando essa entrevista para a VIVER Curitiba? Com a idade a gente vê as coisas de uma outra forma. Meu exemplo sempre foi São Francisco, mas agora fazendo a reflexão de toda a minha vida vejo que não tenho nada a ver com ele. (risos). É preciso falar as coisas, mas da forma certa, sem tanta imposição, sem tanta dureza.

 

O que faz para deixar as tensões de lado? 

Há muitos anos gosto de pintar. Sou uma das artesãs mais antigas da Feirinha de São Francisco, desde 1977, e acredito que esta é uma das grandes válvulas de escape que possuo. Ao entrar no mundo dos meus bancos, bandejas e criações eu me recarrego para um novo dia aqui na escola.

 

Como educar os filhos nos dias de hoje?

Acredito que os pais precisam se preparar porque não adianta ser pai e mãe biológicos. Penso que o primeiro passo é fortalecer os laços com a escola, buscar informações, saber quem é o seu filho e como ele se relaciona e lembrar que educação é um ciclo que não termina. É preciso sempre ter a educação como prioridade.

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