Como lidar com a birra das crianças

“Chega de birra!” Quantas vezes você já disse essa frase ao seu filho? Saiba como lidar com as crises de choro e gritos

16 de junho de 2017 - Por: Redação

Na casa da família Campos Pinto, os pais Guilherme e Letícia já precisaram recorrer à ajuda de psicólogo, mas hoje controlam as birras com um misto de paciência e perdas de direitos (Foto: Mariana Barcellos)

Na casa da família Campos Pinto, os pais Guilherme e Letícia já precisaram recorrer à ajuda de psicólogo, mas hoje controlam as birras com um misto de paciência e perdas de direitos (Foto: Mariana Barcellos)

 

Escândalo no shopping porque não ganhou o brinquedo que queria. Choro porque não quer comer o que tem no prato na hora do almoço. Gritos porque não quer arrumar o cabelo ou vestir o casaco. Malcriação porque não quer tomar banho ou ir dormir. Que atire a primeira pedra a mãe ou o pai que nunca passou por pelo menos uma dessas situações. A birra é um daqueles itens da lista de coisas pelas quais ninguém escapa ileso no mundo da maternidade. Alguns a vivem com mais intensidade, outros têm a sorte de contar nos dedos as crises dos filhos, mas todos passam por isso. E por quê? Porque a birra é uma das formas de comunicação utilizada no mundo infantil, ou seja, muitas vezes, quando as crianças ainda não conseguem se expressar corretamente, fazem birra para conseguir aquilo que desejam, o mais rapidamente possível.

“Birras acontecem em uma fase do ciclo de vida em que a inteligência emocional ainda não se desenvolveu o suficiente para que o diálogo e o manejo adequado dos recursos de autocontrole se sobreponham aos impulsos de falar mais alto, se jogar no chão, sapatear, bater portas, arremessar objetos, por exemplo”, explica a psicóloga Fernanda Roche, especialista em Educação Infantil, mestre em Saúde Mental Infantil pelo Tavistock Institute, em Londres, e diretora-geral do Criança em Foco.

Por isso as birras começam por volta dos 18 meses e têm sua fase crítica entre 2 e 3 anos, quando as crianças ainda não sabem nomear sentimentos e expor argumentos com clareza. Mas isso não significa que parem por aí: não se desespere, mas não há idade limite para a birra. “Tende a diminuir, mas se os pais não souberem lidar de forma saudável, o problema vai continuar existindo”, alerta Angela Bley, doutora em Psicologia e coordenadora do setor de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe.

Na casa da estudante de Hotel Design e Eventos Letícia Erzinger de Campos Pinto e do diretor de Novos Negócios Guilherme de Campos Pinto, pais de Maria Clara, 10, e Bernardo, 6, as crises de birra vieram com tudo entre os 2 e 4 anos, mas ainda acontecem até hoje. “Aquelas situações de escândalo em público diminuíram, mas ainda dão trabalho principalmente nos momentos ‘chatos’ da rotina, como escovar os dentes, tomar banho, se vestir. Tem que ter muita paciência”, diz Letícia.

 

Hoje em dia, Maria Clara e Bernardo costumam dar mais trabalho nos momentos da rotina diária, como na hora de escovar os dentes (Foto: Mariana Barcellos)

Hoje em dia, Maria Clara e Bernardo costumam dar mais trabalho nos momentos da rotina diária, como na hora de escovar os dentes (Foto: Mariana Barcellos)

 

Mas como lidar com isso de maneira saudável, se tudo que você quer na hora do escândalo é gritar também, fugir para o Japão ou se enfiar num buraco?

 

DICAS PARA TENTAR EVITAR AS CRISES DE BIRRA:

 

PEQUENAS DOSES DE FRUSTRAÇÃO

Preventivamente, ainda antes do primeiro ano de vida, pequenas oportunidades de mostrar o “não” e o “sim” ao bebê ajudam a entender que há certas coisas que são permitidas e outras não. “Isso favorece o início da compreensão de que existe um outro alguém, para além de ‘sua majestade, o bebê’, que também tem um querer e que há toda uma negociação a fazer”, diz Fernanda Roche. Então, segure-se um pouco e procure não atender às vontades do seu filho logo de cara sempre. Ele não vai sofrer tanto se esperar um pouco mais pelo seu colo ou pela hora de ir ao parquinho.

 

CONVERSE SEMPRE

Não caia no erro de achar que só porque seu filho é pequeno não adianta conversar. Explicar tudo desde cedo o ajuda inclusive a nomear o que está sentindo mais para a frente. Portanto, aproveite as situações para falar, como “eu entendo que você gostaria deste brinquedo, ele é mesmo muito legal, mas eu também quero muitas coisas agora e não posso comprar” ou “eu sei que o sorvete parece mais apetitoso que o almoço, mas vou te ajudar a esperar até mais tarde, nós vamos almoçar para ficarmos fortes e vamos voltar para tomar juntos depois”, como exemplifica Fernanda Roche.

 

A CRIANÇA SABE ONDE FAZER O ESCÂNDALO, É IMPORTANTE NÃO PERDER A PACIÊNCIA E SABER QUE TODO PAI JÁ PASSOU POR ISSO”, diz Angela Bley, coordenadora do setor de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe.

 

EXPLIQUE ANTES

Ainda sobre o poder da conversa, use-a também para falar com seu filho sobre tudo o que vão fazer em determinadas situações. Por exemplo, se vão ao parque, ao shopping ou à casa da avó e você sabe que ele costuma dar trabalho na hora de ir embora, já diga de antemão onde vão, o que vão fazer e que, quando você disser que precisam ir embora, ele deve ser compreensivo. Se não funcionar, lembre-o do que conversaram e repita isso até que vire rotina.

 

ESCOLHA A HORA CERTA

Tente prevenir as crises de birra que acontecem em momentos críticos. Por exemplo, se a criança está brincando ou muito entretida assistindo a um desenho, espere um pouco, deixe margem para manobra. Vá alertando-a para que vá se preparando e faça combinados, como “mais 10 minutos de brincadeira e então vamos jantar” ou “assim que acabar esse episódio do desenho temos que sair”. Outra dica é a entonação e a forma ao falar: “Não diga ‘vamos tomar banho já’, mas, sim, ‘é hora do banho, vamos lá’, sempre com muito carinho, mas firme”, orienta Angela Bley.

 

PREVINA-SE!

Algumas situações são como uma bomba-relógio para uma crise de birra: sono, fome, cansaço… Qual a criança que não fica manhosa nesses casos? Por isso, tente não marcar programas cansativos nos momentos em que a criança está acostumada a comer ou dormir e tenha sempre na bolsa opções de snacks saudáveis para um lanche rápido, como bolachas integrais ou frutas cortadinhas.

 

LIMITES SEMPRE

Pode soar como clichê, mas faz todo sentido: quando se fala em educação, limite é sinônimo de amor. Se você consegue mostrar ao seu filho até onde ele pode ir, sem perder o respeito, de maneira carinhosa e firme, é possível que as crises de birra – pelo menos aquelas quase incontroláveis – sejam escassas e que ele consiga ouvir mais você na hora do sermão. Para isso, é preciso ter coerência: não pode deixar num dia e no outro não deixar nada, e também não dá para ameaçar determinado castigo e depois ter pena de cumprir. Além disso, outro ponto fundamental é que pai e mãe precisam estar em sintonia. “Ambos têm que falar a mesma língua. Claro que vó tem mais flexibilidade, por exemplo, mas é importante seguir o padrão da casa”, destaca Angela Bley.

 

NA HORA DA BIRRA

Se você fez tudo isso e, ainda assim, seu filho teve uma crise de birra, fique calmo. É algo que leva tempo e necessita paciência e insistência. E também há algumas dicas para quando o problema já está instalado: abaixe-se, olhe na mesma altura da criança, fale firme, mas em tom baixo: “Esse seu comportamento não está legal, quando você se acalmar vamos conversar”, então certifique-se de que ele está seguro e saia de perto. “A criança sabe onde fazer o escândalo, é importante não perder a paciência e saber que todo pai já passou por isso. Falar com calma, firme, mas não falar demais, tirar do ambiente. Não adianta bater, os pais têm que estar seguros e tranquilos do que estão fazendo”, defende Angela Bley. A psicóloga Fernanda Roche reforça a importância de tirar a criança do local. “Todo birrento evolui deixando envergonhados os adultos em volta, que acabam muitas vezes cedendo, seja por vergonha, seja por cansaço. Quanto mais nova a criança, mais devemos protegê-la e levá-la ao banheiro do shopping, ao estacionamento dentro do carro até que se acalme (e nós também, naturalmente). Quanto mais velho, mais acredito que devemos nos juntar ao público pasmo, que é para ver se a autopercepção e vergonha são finalmente internalizadas”, diz.

 

Não adianta ficar dando sermão no momento crítico da birra, mas também não deixe para falar só no dia seguinte. Assim que ambos se acalmarem, reforce ao seu filho que você o ama, mas não gostou do comportamento dele. Colocar ou não de castigo varia muito de família para família, mas caso você o faça, não ameace aquilo que não pode cumprir. Na hora da raiva, muitas vezes a vontade é dizer “você nunca mais vem ao shopping!”, mas você sabe que isso não vai acontecer. Portanto, escolha bem o que vai dizer para conseguir cumprir depois. Na casa de Letícia e Guilherme, o pai é mais linha dura e sempre corta as crises de birra com o castigo de tirar o direito dos filhos sobre algo, como assistir a TV ou brincar no tablet, por exemplo.

 

E QUANDO PASSA DOS LIMITES?

A criança que faz birra sofre também, pode ser um sinal que não está bem com ela mesma. “Se as crises forem frequentes, pais e filho precisam da ajuda de um profissional especializado para uma intervenção mediada o mais precocemente possível, para que os traços de descontrole emocional não se agreguem à personalidade em construção e prejudiquem o saudável desenvolvimento emocional do jovem e futuro adulto”, diz Fernanda Roche. Letícia lembra uma situação que foi a gota d’água e a levou a procurar ajuda. “Quando a Cacá tinha 3 anos e 3 meses, cheguei a ficar três horas – literalmente – tentando colocar o uniforme dela para irmos à escola. Depois de tentar de tudo, me descontrolar e até chorar, enfiei o uniforme nela aos trancos e barrancos, com ela chorando e me estapeando e, claro, marquei psicóloga”. Para Maria Clara, a terapia ajudou bastante e o clima da casa melhorou muito. Claro que ela e o irmão ainda testam os limites dos pais – coisa normal de criança – mas, nada que atrapalhe o bem-estar da família. No dia da sessão de fotos que ilustram esta matéria, todos inclusive brincavam com a situação. “Olha só, vieram correndo escovar os dentes. Vocês não querem vir aqui todo dia fazer foto, não?”, divertiu-se Letícia.

 

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