Elizabeth Titton, a menina do dedo verde

Um bate-papo sobre vida, arte e inspiração com a artista

28 de abril de 2015 - Por: Redação

Elizabeth Titon

No famoso livro infantil O menino do dedo ver­de, do francês Maurice Druon, Tistu era um ga­roto com um dom excepcional: bastava um to­que de seu polegar para que surgissem plantas e flores onde quer que ele encostasse.

E não é que a poucos metros da revista VIVER Curitiba mora uma pessoa com um talento muito pa­recido? A escultora Elizabeth Titton nos recebeu com um café delicioso para um bate-papo sobre vida, arte e inspiração em seu chalé cercado de natureza por todos os lados, no bairro São Lourenço. É lá que ela cria seu mundo paralelo. Das suas mãos nascem árvores, aves e frutos num conjunto lúdico e incrivelmente belo em peças de metal de todos os tamanhos.

O trabalho é resultado de uma evolução que vem desde meados da década de 70. O tempo a levou a ex­perimentar técnicas e matérias-primas que passaram por litogravuras e máscaras em bronze fundido, cerâ­micas, esculturas em alumínio e peças em madeira e resultaram nas famosas árvores de aço cortado a laser. Elas são a grande assinatura do trabalho de Elizabeth, fruto da coleção In Natura, apresentada em 2007, no Museu Oscar Niemeyer.

Apesar de ter algumas memórias de ensaios com a arte quando era criança, quando observava o vaivém das formigas e estudava maravilhada as formas das nuvens, Elizabeth Titton demorou para mergulhar no mundo da criação. Trabalhando como administradora da Casa de Saúde São Francisco, ela tinha quase trin­ta anos quando se inscreveu em um curso de férias do Centro de Criatividade de Curitiba, no ateliê de gravura então coordenado por Fernando Calderari. Apaixonan­do-se pela escultura e suas possibilidades decidiu não mais voltar ao trabalho. A mudança fechou algumas portas, abriu muitas janelas e a fez sensivelmente mais feliz.

Elizabeth Titton 2

Estudou e aposentou-se como professora da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, expôs mundo afora e hoje suas obras tornaram-se peças de design comer­cializadas em lojas em todo o país.

Seu mágico dedo verde fez brotar não apenas suas belas criações, mas cultivou os melhores sentimentos em quem de uma forma ou de outra tem contato com a artista. Afinal, além de técnica e talento, Elizabeth Titton sabe que para se fazer arte é fundamental saber enxergar com o coração.

O OLHAR PARA A ARTE VEM DESDE PEQUENA?

Eu achava que não, mas depois fui entender que tive, sim, uma experiência muito cedo com a arte. Aos oito anos, quando frequentava a escolinha de arte do Colégio Estadu­al do Paraná vi pela primeira vez uma máscara africana de argila e pensei comigo: “um dia ainda vou fazer isso”. Aos doze, folheando um exemplar da revista O Cruzeiro, me deparei com retratos a carvão que ilustravam uma reporta­gem e me propus a copiar aqueles traços. Meu pai adorou o que viu e saiu na hora para comprar materiais para que eu começasse a desenhar.

E FOI AÍ QUE TUDO COMEÇOU?

Que nada! Nunca mais toquei naqueles grafites. Na verda­de eu queria apenas fazer aquele desenho. Para mim, aque­les rostos eram como uma máscara, mas quando trabalhei nas primeiras esculturas, muitos anos mais tarde, essas memórias ressurgiram. Acredito muito que as coisas ficam dentro da gente, armazenadas, esperando a gente colocar a mão no barro para trazê-las à vida.

E O TEMPO FOI PASSANDO…

Sim, quando fui fazer vestibular eu decidi não fazer Be­las Artes porque sabia desenhar. Aí fiz Administração de Empresas, trabalhei bastante com isso e, aos 30 anos, fui fazer um curso de férias no Centro de Criatividade São Lourenço e gostei tanto que nunca mais parei.

COMO ASSIM?

Isso mesmo, a decisão não foi muito fácil, mas era o que eu queria fazer. Eu era administradora hospilar e não voltei mais ao trabalho. Comecei a ir para Centro de Criatividade todo dia e em dezembro o Calderari me emprestou livros para eu fazer vestibular. Entrei na Escola de Música e Belas Artes do Paraná e no segundo ano já estava representando o Brasil na V Bienal Internacional da Pequena Escultura, em Budapeste, com as primeiras máscaras que fundi em bronze.

MUDAR RADICALMENTE É A MELHOR OPÇÃO?

Acho que não. Qualquer decisão de mudança tem que ser muito amadurecida. No meu caso tudo foi bem refletido. Até porque se a decisão for apressada depois você pode ficar infeliz e o caminho pode nunca mais ter volta.

COMO VOCÊ SE DEFINE?

Acho que o que enriquece meu trabalho é o contato com outras pessoas. A minha vida sempre foi pautada em tro­cas. Eu gosto de me definir como uma mediadora. Eu fui professora na Belas Artes muitos anos, tive a minha escola, e gosto de apresentar assuntos para o outro resolver, de in­troduzir, não de ser a que sabe tudo, mas que está ali para pensar junto.

ENTÃO VOCÊ NÃO DÁ AS RESPOSTAS…

Mas eu não tenho nem pra mim! (risos) Quem me dera… A gente descobre as respostas a duras penas.

COMO É O PROCESSO DE CRIAÇÃO?

Não existe coisa mais insegura que criar. Que certeza você tem que isso vai dar certo? Agora estou criando para 2017, porque a cada dez anos eu faço uma individual grande. Es­tou desenhando, tenho um caminho já definido, mas mesmo assim volta e meia fico na dúvida sobre para que lado vou.

QUANDO VOCÊ DEFINIU SEU ESTILO?

Aos poucos, fui simplificando as formas e o volume das pe­ças, partindo da ideia da tridimensionalidade para a chapa de aço bidimensional. Em 2000 eu fiz umas peças cortadas a laser para o teto num hotel da Suíça e despertei para a ideia de fazer em aço para fazer múltiplos como um jeito de democratizar meu trabalho e torná-lo mais acessível. A peça única é muito cara, quem é que pode ter? Eu queria ir até as pessoas, queria que a pessoa tivesse uma arvorezinha na sua casa, que tivesse esse contato com a arte.

ESSE É O CAMINHO PARA A ARTE?

Pelo menos para a minha arte foi. O corte a laser permite uma tiragem maior, o que diminui seu custo comercial sem alterar o valor artístico. Como sou administradora, percebi que posso fazer com que as pessoas disponham da mesma qualidade, da mesma criação, da mesma obra, com um pre­ço acessível.

PESSOAS QUE TE INSPIRAM?

Foram tantas pessoas que é quase impossível citar. O Cal­derari foi sempre uma pessoa acessível, querida e com uma qualidade técnica. O fato dele ter olhado para mim e ter dito que eu tinha um bom traço fez toda a diferença na mi­nha vida. Além disso, ele me emprestou livros para que eu estudasse para o vestibular. O engraçado é que hoje eu qua­se nem falo com ele, mas é uma coisa que está aqui dentro.


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