A vida em ondas

8 de março de 2015 - Por: Redação


A história do artista curitibano Tom Veiga é uma prova de que, mais que uma bênção, a felicidade muitas vezes é uma conquista. Após se apaixonar pela cultura surfe, em 2005, ele se dedicou a encontrar uma linguagem artística marcante com poucos traços e muitas cores e movimentos de ondas inconfundíveis.

Muitas portas se abriram, outras – como ele mesmo diz – precisaram ser arrombadas. O tempo passou, o designer foi dando lugar ao artista e o sonho de construir sua vida na praia com a esposa e os filhos se tornou realidade. Tom, que já assinou projetos com marcas importantes do mundo do surfe, mora hoje em Garopaba e trabalha exclusivamente com a Mormaii.

Seus trabalhos já foram enviados para mais de 35 países como Argentina, França, Espanha, USA e Japão. Os projetos artísticos avançam e os planos de estar mais presente em outros países através de parcerias com algumas galerias começam a acontecer.

COMO TUDO COMEÇOU?
Em 2005 eu estava em Curitiba fazendo um curso de Publicidade e Propaganda no Centro Europeu e precisávamos fazer um trabalho de Plano de Mídia em sala de aula. Fizemos sobre a revista Fluir, que é a principal revista de surfe brasileira. Vendo as fotos de praias, de viagens e dessa cultura eu me apaixonei e pensei: por que não viver isso? Como eu trabalhava como designer em uma agência, acreditei que poderia trabalhar como designer para uma marca de surfe e viver essa experiência.

DAÍ EM DIANTE FOI 1% INSPIRAÇÃO E 99% DE TRANSPIRAÇÃO…
Exatamente. Passei a comprar revistas de surfe para conhecer as marcas, ver como era o design usado por elas e comecei a mandar e-mails procurando oportunidades de emprego. Foram pelo menos quatro anos criando e enviando estampas para as marcas cheio de esperança de que fossem me contratar e na maioria das vezes não recebendo nem retorno. Em março de 2009 eu programei minhas férias para Garopaba para poder bater na porta da Mormaii e mostrar meus desenhos para eles em busca de uma oportunidade. Ainda não foi dessa vez, mas em junho comecei a desenhar ondas, pois já que não conseguia trabalhar em uma marca de surf, pelo menos desenharia as ondas para me sentir mais perto dessa cultura.

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O QUE MUDOU A PARTIR DAÍ?
Foi quando nasceu minha arte e meu estilo e acabou acontecendo o caminho inverso, as marcas gringas começaram a me procurar, meu trabalho começou a sair em sites, blogs e revistas de várias partes do mundo, comecei a fazer exposições pelo Brasil e fora e a vender artes para vários países. Em outubro de 2012 eu recebi um contato do Doutor Morongo, dono da Mormaii, para uma reunião e voltei de lá com uma parceria fechada.

E HOJE, QUAL É A SUA ROTINA?
Eu trabalho de casa, muitas vezes trabalho na praia ou em alguma cafeteria por aqui, tenho uma exclusividade com a Mormaii, mas continuo com meu trabalho autoral, criando meus produtos, vendendo meus quadros, fazendo viagens e exposições. Deus tinha um plano maior do que o meu.

COMO ASSIM?
Imagine se em 2009 a Mormaii me contratasse? Hoje eu não teria minha arte, não teria viajando a tantos lugares expondo e não teria assinado tantos projetos legais para a Billabong, a Reef, a Globe e as Havaianas. As portas fechadas muitas vezes são para planos melhores do que o que queremos no momento. Se tiver um sonho, você tem também que correr atrás mesmo que muitas portas venham a se fechar nesse processo.Afinal, quem tem um sonho não pode desistir.

Board da Globe e chinelos Havaianas com sua estampa

Board da Globe e chinelos Havaianas com sua estampa

VOCÊ É UM DESIGNER QUE VIROU ARTISTA. A ARTE GRÁFICA É VISTA COMO UMA ARTE MENOR?
Sou exatamente isso, um designer que através do design começou a descobrir a sua vocação pela arte, e em muitos casos isso fez com que o que faço fosse visto como algo com pouco valor. Em contrapartida, o fato de ser uma arte gráfica me ajudou em outros projetos por conta da fácil aplicação do meu trabalho em qualquer projeto. Foi assim com o projeto que assinei das Havaianas, por exemplo.

COMO SE DÁ O SEU PROCESSO DE CRIAÇÃO E QUAL É O SEU MOMENTO ATUAL?
Todo meu trabalho se inicia no papel, só a finalização do meu trabalho base é no computador, e hoje também já ultrapassei esse limite, pois acredito que o artista sempre tem que explorar novas formas de refletir suas paixões. Em dezembro lancei uma série de artes na qual uso a minha linguagem das ondas usando madeiras de descarte das reformas dos barcos de pesca de Garopaba. São cores e texturas em madeiras que têm até 40 anos de mar onde crio meus desenhos.

UNIR ARTE E BUSINESS É UM BOM CAMINHO A SEGUIR?
Há espaço para todos, tanto para artistas que só vendem seus quadros de forma mais seleta como para outros que pensam de forma diferente e dão oportunidade a mais pessoas de terem acesso a seus trabalhos, eu não vejo nada errado nisso. Assim como um músico faz músicas para tocar as pessoas, acredito que apresentar a arte em uma Havaianas ou em um skate é uma forma de aproximá-la de um número maior de pessoas.

EM QUE PONTO SUA PAIXÃO PELO MAR APARECE?
O mar é incrível. Quando você vê o mar flat ele já é lindo, mas quando você vê uma onda quebrando no horizonte é como se o mar esteja sorrindo. É uma maravilha que Deus criou e isso me inspira demais, pois cada onda ao redor do mundo tem uma característica única e o que me inspira é mostrar essas diferenças. Através das ondas consegui desenvolver um estilo que aplico em todos os meus projetos, mesmo aqueles que não têm onda.

TEM ALGUM PROJETO PARA UMA EXPOSIÇÃO EXCLUSIVA DE CURITIBA?
Eu passei minha vida toda em Curitiba, amo a cidade e ainda quero fazer uma exposição inspirada totalmente nela. Eu já desenhei alguns pontos, mas ainda quero fazer todos, por tudo que a cidade significa para mim. Um lugar muito especial em Curitiba é o Mercado Municipal, pois foi lá que minha arte nasceu. Eu trabalhava no Alto da XV e todos os dias aproveitava o horário do almoço e ia para um café no Mercado e ficava desenhando ondas. Toda vez que vou para Curitiba, o primeiro lugar que vou é tomar um café ali no Mercado Municipal, é uma das coisas que sinto falta aqui em Garopaba.

E A FAMÍLIA?
Tenho uma esposa maravilhosa que me ajuda muito e dois filhos pequenos. Temos um ritmo muito legal, quase todos os dias levamos as crianças para brincar na praia, nos parquinhos. Garopaba é uma cidade com menos de 22 mil pessoas, não tem prédios, nem semáforo. É uma vila de pescadores e poder comprar peixe direto do pescador na praia enquanto meus filhos dão comidas para as gaivotas não tem preço. Muitas das coisas que vivo hoje eu pedi a Deus para poder viver, por isso não esqueço de agradecer.


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