Carta para Marieta

16 de maio de 2013 - Por: Redação

Todo jornalista tem um desejo secreto ao produzir uma matéria. O furo de reportagem,  aquela informação que ninguém deu, aquele texto perfeito, a sacada de última hora que vai fazer todo mundo dizer que ele escreve muito. Como não gosto de segredos, vou confessar logo aqui no primeiro parágrafo que meu desejo com a entrevista é escrever uma carta de amor para Marieta Severo. Vou tentar disfarçar, ser sutil, mas sinceramente acho que os 30 anos com o Chico Buarque a deixaram mal acostumada. Ou não… Gostaria simplesmente de dizer que Marieta é um pouco de tudo o que eu admiro em uma mulher. Linda em todas as idades, educada na medida certa, verdadeira até no silêncio, trabalhadora incansável e resiliente, sonhadora, sensível, mãe dedicada, avó bagunceira… E tem o dom de fazer tudo isso sem a menor pretensão de servir de exemplo. Marieta só é Marieta porque em algum momento da sua vida entendeu que cada função que exerce tem um porquê. Ela me disse que nunca parou para pensar nisso, mas basta olhar para cada um destes papéis exercidos para perceber que ela sabe exatamente sua missão em cada um deles. Como atriz, a palavra é qualidade. Em A Grande Família é grande o orgulho em dizer que cada pessoa que faz parte do projeto tem compromisso em oferecer o melhor, somente o melhor ao telespectador. Depois de novelas, filmes e incontáveis peças de teatro, ainda batalha por patrocínio para sua próxima peça.

Descobri nesta entrevista uma artista, no sentido maior da profissão, com um desejo de transcendência, de permanecer em cada artista que passa pelos palcos do Poeira, no Rio, fruto de um sonho conjunto com a amiga Andréa Beltrão. Marieta mãe (assim como todas aquelas dos outros endereços) é só entrega. Fala das filhas com a alegria de missão cumprida. Vê os netos brincando juntos e orgulha-se de ter escolhido os melhores caminhos dentre tantos que a vida ofereceu. Minha carta de amor vai também para a Marieta mulher, que cuida do corpo, mas se ama sem exageros. A Marieta que tem espelho em casa. Sabe que a idade lhe roubou algumas alegrias, mas lhe entregou outras tantas tão mais especiais que é capaz de rir como ninguém das rugas. São tantas Marietas que certamente você tenha se identificado com uma delas. Talvez só por isso essa carta tenha valido a pena.

 Para começar, gostaria que você falasse do seu “filho caçula”,  o Poeira. Como é realizar esse sonho de ter um teatro?

Pois é, da minha vida profissional, dessa minha atuação no universo cultural, o Poeira é a minha maior realização. Simplesmente porque dá sentido, é a síntese de porque eu escolhi essa profissão. Esse projeto vai fazer oito anos agora e eu tenho certeza de que tudo o que eu fiz é o que significa mais e é o que vai ficar.

 É difícil entender que você, com tanta história na TV, no cinema e no teatro brasileiro, diga que o Poeira foi sua maior conquista…

Sim, é claro que minha carreira é importante, mas poucos conseguem realizar, ter a vontade, a coragem e o senso de batalha que Andréa Beltrão e eu temos ali no Poeira. Tudo está muito ancorado numa forma que venha contribuir além da minha atuação, além dos meus limites como atriz.

E talvez a maior conquista seja a transcendência, não?

Com certeza!  Aliás espero que o Poeira tenha uma vida muito maior que a minha. E essa coisa da transcendência é muito importante. É enorme a alegria de ver a quantidade de jovens que já passaram por ali. Com o Poeira realizo essa vontade que está muito ligada à minha geração, mas que está presente em todo mundo, que é fazer um pouco para o outro. Não é para o outro ator ou atriz, é para a cultura teatral. Na medida em que a gente está fazendo algo com qualidade, com critério, a gente está colocando mais um tijolinho nesse fazer teatral. É uma grande alegria poder contribuir com seu meio.

 Em uma TV que mais deseduca, qual o diferencial da A Grande Família para estar tanto tempo no ar?

Não acho que a questão seja educar ou deseducar. Acho que o fator mais importante é que o público gosta de se ver espelhado nessa família porque ela representa o que a gente tem de melhor. A Grande Família mostra o que a gente tem de capacidade de afeto, de lidar com as situações de uma maneira positiva, bem-humorada.  O brasileiro consegue dar nó em pingo d’água. Acho que as pessoas gostam de se ver ali, gostam de dizer, “nossa, minha mãe é igual à dona Nenê, meu pai é o Lineu escrito”. Além disso, cada episódio é feito com muito critério, com muita qualidade e basicamente existe um enorme respeito pelo telespectador. Durante esses 12 anos esse foi sempre um critério muito importante para quem escreve, para quem dirige, para quem atua. A gente apresenta o que pode fazer de melhor.

 Você é bem-humorada?

Sim, bom humor é fundamental, é a melhor maneira de levar a vida. E o brasileiro tem essa característica. Acho que o baião sintetiza a maneira da gente falar da nossa dor, de cantar a nossa dor, de forma ritmada, bem-humorada, para cima. “Quando vi a terra ardendo…” O que é isso? a terra está ardendo como fogueira de São João, está todo mundo se ferrando e a pessoa cantando! Isso é Brasil e me identifico muito com isso.

 E o que a Dona Nenê te ensinou?

Eu acho que ela alargou em mim esse espaço de tentar harmonizar as coisas. Com ela eu aprendi a exercer a compreensão o tempo todo. Outra coisa muito gostosa que a Nenê me dá é o sorriso das pessoas nas ruas. Quando alguém já vem com um sorriso nos lábios ao me ver eu sei que é coisa da Dona Nenê, não sou eu não. Em qualquer lugar que eu vá em todo Brasil sinto essa coisa gostosa, receptiva.

Indo para o 13o ano juntos, vocês já viraram uma família de verdade, não?

Nossa, é muito tempo de convivência! A gente se conhece muito, tem uma ligação muito forte e acabo convivendo mais com as pessoas do trabalho do que a minha própria família. Aliás, quem me dera que eu tivesse três vezes por semana nove horas por dia para ficar com a minha família.

 Você também tem uma grande família…

Sim, tenho um orgulho muito grande da minha família, a gente se encontra muito, se vê muito. Gosto muito de ver a convivência entre os primos e primas, que é muito gostosa. Isso me dá uma sensação muito boa de dever cumprido e de ter feito as coisas de uma forma positiva É também muito bom ver meus filhos fazendo a mesma coisa em relação aos filhos deles.

 Como você gostaria de ser lembrada?

Eu acho que a palavra que menos combina comigo é saudosismo. Eu estou muito conectada com o presente, com o que estou vivendo e tenho a tendência de sempre  achar as transformações bacanas. Espero que lembrem de mim velhinha. Que fique a minha última imagem de uma velhinha esperta. “Ih, cadê a Marieta? ela foi!”

 Como você lida com o passar dos anos?

Acho bacana o publico acompanhar minha carreira. Estes dias, ao olhar as imagens dos primeiros programas a gente ficou impressionado porque 12 anos depois está todo mundo mais velho. Eu gosto disso, do povo me ver envelhecer.

 Mas você é vaidosa…

Sim, e não entendo o ator ou a atriz que não se cuida. Ele tem que viver da melhor forma. Isso não quer dizer que ele tenha que viver aos 66, que é a idade que eu tenho, com cara de 40. Ele já viveu com cara de 40. Mas é preciso estar bem cuidado. O meu instrumento é o meu corpo, se eu não estiver muito ágil, se eu não puder levantar, sentar, aí não consigo trabalhar.

E da plástica, você é a favor?

Olha, eu acho que já perdi esse bonde. Sei lá, acho que agora não dá mais para pensar nisso, já foi. Agora o público já se acostumou com o meu pescoço, que está uma m… há muitos anos. Talvez há 10 anos até tivesse sido bom, não sei. Mas realmente não sou a favor de você ficar camuflando, é difícil ficar escondendo a idade. Acho que é melhor você ficar de bem com o seu corpo. E não que seja fácil, não quero passar isso para as minhas amigas leitoras, porque não é fácil. Não é legal esse processo de decadência física. Não é só a ruga, é você sentir que não tem a mesma energia, que você precisa de uma soneca de tarde senão não vai aguentar até as duas da manhã… Sabe, esses limites que a idade vai te impondo, eu os acho tão mais chatos do que uma ruga.

 Talvez o segredo seja esse. Entender os limites e saber conviver com eles…

Com certeza, ninguém pode dizer que acha legal o pescoço caindo, ficando tudo uma meleca, não é bom. Mas também é muito esquisito você ficar correndo atrás de uma idade que você não tem. Só que acho que cada um deve fazer da forma que fique mais feliz. Se com a plástica a pessoa se sente bem, vai estar com a autoestima equilibrada, aí tudo vai estar bem.

Você ainda tem algum sonho profissional?

Sim, o meu sonho agora é uma peça maravilhosa, que se chama Incêndios, e que eu estou aqui suando para encontrar patrocínio. Já estamos com os direitos, que é de um libanês, que é de uma história linda que até ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro há uns cinco ou seis anos, cuja origem é a peça. O meu sonho, então, é muito imediato, conseguir esse ano realizar essa peça. Mas é que está difícil…

Marília Gabriela disse em entrevista à VIVER a respeito dos seus ex-maridos que quem ama com coerência ama para a vida inteira. Você concorda com isso?

Eu concordo e exerço isso. O Chico e eu temos uma família que é belíssima e da qual eu muito me orgulho, foi feita a dois! E não há nada mais precioso nem na minha vida, nem na vida dele do que isso. É o ponto de partida, é o nosso chão, a nossa vida, a nossa perspectiva… é o nosso presente e também o nosso futuro. A gente trabalhou, fez tudo em função destes três filhos.

Você não tem problema em falar disso?

De maneira alguma. Tivemos uma história de 30 anos. E temos uma relação que continuou nestes 15 anos em que estamos separados. Dificilmente uma pessoa vai saber o que nós sabemos um do outro.

Já faz muito tempo que você se separou. É possível agora fazer um balanço?

Toda a sua vida você vai vivendo e nunca vai planejando. Eu não planejei, você não sabe quanto está ali, você age de acordo com a tua formação, com a tua cabeça. E eu gosto de ter feito do jeito que eu fiz, de estar no lugar que eu estou. Gosto de tudo ter caminhado nessa direçao. É lógico que quando eu estava me separando eu não sabia o que ia acontecer, eu estava vivendo aquele momento. Acho que esse é o grande segredo da vida, viver o momento, com seus sabores e dissabores.

 


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