Fafá

23 de março de 2014 - Por: Redação

Uma semana antes de nos receber para essa entrevista, Fafá tropeçou e caiu enquanto cantava o hino nacional durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Como ela própria definiu, foi “um tombaço”, mas ao invés de lamentar a sorte, a cantora se divertiu comentando em seu perfil no Twitter que havia acabado de receber um convite para um comercial de airbag duplo e aproveitou para alfinetar Vanusa, que virou um fenômeno na internet por esquecer e improvisar (muito mal) a letra do Hino Nacional. “Caí, mas não errei a letra”, postou. “Tombaço, mas não desafinei.”

Fafá é isso. Fibra, pensamento rápido, bom humor. Aos 57 anos, após incontáveis namorados, nenhum casamento no papel e a filha Mariana, com o saxofonista Raul Mascarenhas, Fafá delicia-se com a netinha Laura no intervalo de seus inúmeros compromissos profissionais.

Ela é pura MPB, no que de mais literal a sigla oferece, já que interpreta sem preconceitos a verdadeira música popular brasileira. Como se não bastasse, é uma das cantoras brasileiras mais amadas e reconhecidas em Portugal, país que a recebe sempre de braços abertos.

Fafá saiu jovem de Belém para realizar o antigo sonho de ganhar o mundo e fez tanta coisa que parece que teve mais de uma vida. Participou de três ensaios sensuais na década de 80, foi a musa das Diretas Já, lançou moda com seus decotes generosos, cantou para três papas e hoje transita por festas sagradas e profanas como o Círio de Nazaré e o Carnaval de Olinda com a naturalidade de suas gargalhadas deliciosamente escandalosas.

Virou marca nacional por conta dos seios exuberantes, típicos da mulher brasileira, e quando lançaram um Fusca com o farol maior, não demorou muito para o povo apeli dá-lo de Fusca Fafá. Volta e meia um amigo mandava recortes de classificados de jornal engraçadíssimos: “Vendo Fafá 78, mas bem conservado”.

Brincadeiras à parte, Fafá está, sim, muito bem. Ela veio a Curitiba participar do Concerto de Natal da Universidade Positivo e conversou conosco sobre o papel da mulher, fé e seu amor por Curitiba. Bastaram poucas horas entre a entrevista e a sessão de fotos para percebermos que ela aprendeu desde muito cedo a pautar sua vida pelo respeito pelas pessoas e principalmente por si própria. Talvez essa seja a maior inspiração dessa paraense encantadora: “ser mulher é saber se valorizar. ”. Quem aprende essa lição pode até cair porque logo se levanta. E quando se levanta… é para receber muitos aplausos.

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AS MULHERES E O MACHISMO

“Acho que hoje a gente regrediu muito em relação a mulher. Desde que veio a Boquinha da Garrafa com as mulheres sendo tratadas como pedaços de carne dançando, e a forma como a mulher é tratada no funk. Pode ser caretice minha, mas acho que a mulher passou a ser desvalorizada.
Não há nenhuma contestação, apenas a aceitação do machismo. A mulher sendo usada com uma peça de carne, meninas de 11 anos completamente sexualizadas, quando deveriam estar brincando de boneca. Acho que está havendo uma abreviação da infância. O sexo é para ser descoberto, vivido no seu tempo, mas não é para ser uma moeda de troca”.

Sua alegria, sua fé e sua força inspiram muitas pessoas. O que te inspira?

O que me inspira é a vida e a possibilidade de me superar a cada dia. Eu cresci cheia de nãos. Eu não era magra, não era prendada, ia contra tudo o que se esperava na minha geração. Sempre fui muito curiosa e esse meu desejo de ir além foi o que me trouxe até aqui. Nesse sentido meu pai foi uma pessoa fundamental na minha vida. Ele sempre foi muito aberto, muito generoso e me ensinou a gostar de gente.

Você era mesmo muito diferente?

Sim, eu nunca pensei em casar, por exemplo. Mamãe ficava enlouquecida comigo, dizia para eu não rir desse jeito, mas tenho essa gargalhada desde que me entendo por gente. Eu sempre quis conhecer o mundo. Queria viver, conhecer gente e a música me abriu portas para realizar esse sonho. É por isso que eu digo que ela é a minha companheira mais antiga.

Como é seu relacionamento com essa companheira?

A minha trajetória passa por um espaço musical muito grande. Diante disso, já me chamaram de brega e tudo o que você possa imaginar. Mas o que interessa é o que me emociona. Se uma música não me arrepia, não gravo. Em todos esses anos de carreira nunca me coloquei à disposição do que não fosse sincero e verdadeiro. Paga-se um tributo muito alto para se defender o que se acredita. Dei muito murro em ponta de faca.

Como é ser avó?

Quando minha neta, Laura, nasceu, fiquei muito emocionada no momento em que entrei no quarto e a Mariana, minha filha, estava com ela no colo. Ali eu disse “Ok, a sequência da vida está feita. Já atingi minha herança maior, que é uma família digna, correta. Agora posso viver a minha segunda adolescência”. (Risos)

Você participa de duas festas gigantescas, uma sagrada e outra profana. O que isso significa?

É sensacional porque tanto o Carnaval de Olinda quanto no Círio de Nazaré são festas populares que reúnem milhões de pessoas. O Círio é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco e é fundamental para todo um povo. Principalmente nesse momento em que se fala em ecumenismo, no qual é importante que o bem seja feito e que a fé permeie.

Qual foi sua primeira experiência religiosa?

Nós temos uma relação com a fé no Pará de uma forma muito diferente. No primeiro Círio a gente está ainda bebê nos braços de alguém. No segundo, já está com uma asa que só vai crescendo ano a ano. Naquela cultura, Nossa Senhora nos visita, está sempre perto.

Quem é Maria para você?

É a energia feminina mais poderosa do mundo. É a grande mulher, que é generosa, que a todos abraça, que a todos compreende. Uma mãe que ama o filho e mesmo no momento mais complicado abraça e protege. Maria é uma só, ela se manifesta de uma forma na qual ela possa comunicar a sua fé e o seu legado com características físicas de acordo com aquele povo. Mas Nossa Senhora é uma só.

Você viveu a experiência única de cantar para três papas. Como isso aconteceu?

Eu sempre me pergunto, “Por que eu?”. As indicações são das comunidades, das arquidioceses, mas quem escolhe é o Vaticano. Acredito que vivi uma vida coerente com a minha fé e identificada com o povo brasileiro. Sem dúvida, cantar para o Papa João Paulo II foi a maior emoção da minha vida.

E como foi com o papa Francisco?

Sempre uma nova emoção. Francisco está sendo muito acolhedor e trazendo a Igreja Católica para suas raízes. E aqui uma curiosidade: tive a confirmação de que cantaria para o Papa Francisco aqui em Curitiba. Eu estava participando de um espetáculo e quando recebi a notícia anunciei para todo o Brasil do Santuário (Nossa Senhora de Guadalupe) do Padre Reginaldo Manzotti.

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O EXERCÍCIO DE SE VALORIZAR

“Fiz sucesso muito cedo, com 18 anos, capa de todas as revistas. Eu era uma menina de Belém do Pará e quando olho pra trás fico feliz porque consegui fazer uma trajetória muito bonita. Nunca vendi minha alma pra ser capa de revista e sempre procurei preservar minha vida particular. Acho que ser mulher é o exercício de se valorizar. Vivemos em uma sociedade extremamente machista e quem não sabe se posicionar, de forma verdadeira e com elegância, perde espaço”.

Você conhece muito bem Curitiba, não?

Sim, Curitiba é forte na minha vida, fiz grandes amigos aqui como o (jornalista e crítico musical) Aramis Millarch. Fiz meu primeiro show no Teatro Paiol, em 1976, com o disco Tamba Tajá, logo depois voltamos e lotamos o Guaíra. Foi o primeiro grande teatro em que me apresentei.

Na época das Diretas Já você passou por aqui…

Sim, fizemos um encontro histórico e nesse tempo conheci o (José) Richa e o (Maurício) Fruet.

Tem alguma lembrança marcante daqui?

Além dessas que falei, tenho um grande carinho por Santa Felicidade e os sabores do Velho ou do Novo Madalosso. Quando ia me visitar em São Paulo, meu pai sempre arranjava algum motivo para pegar um ônibus para Curitiba, almoçar em Santa Felicidade e voltar.

Como você conseguiu lidar com a sensualidade sem se vulgarizar?

A minha vida sempre foi muito tranquila, sempre usei meus decotes, minhas pernas de fora, mas nunca usei para chocar, para passar do ponto. Eu sempre só quis me sentir bonita. Acho importante em qualquer idade. Acho que você pode botar um decote, mas não precisa estar toda arreganhada. São duas coisas diferentes. Uma é a sensualidade. Outra é a sexualização excessiva.

Como você definiu seu estilo?

Com 12 anos eu já era desse tamanho e nada ficava interessante. Uma calça que ficava bem na coxa ficava larga na cintura, o vestido que ficava bem no seio ficava largo na cintura. Além disso, os sutiãs eram horrorosos e percebi que podia fazer algumas coisas customizadas. O cinema ajudou muito a saber valorizar e entender quem eu queria ser. Gostava muito da sofisticação de Sophia Loren e procurava imitá-la. Faz parte da história de toda mulher saber quem vai ser sua heroína. Eu fiz a lição de casa.

Qual a sua mensagem para nossas leitoras em 2014?

Desejo que este seja um ano muito abençoado. Terá muita coisa acontecendo, mas ao invés de reclamar, vamos fazer alguma coisa: estender a mão, olhar para o outro e nos voltar para o Brasil do interior, do nosso quintal. É ele que nos alimenta, é ele que nos dará o rumo da vida.

Fafá por Fafá…

Eu sou uma brasileira que gosta de cantar, uma mulher de fé, e nunca a minha vida será menor em qualquer coisa que me propuser a fazer.


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