Filho da luz

15 de março de 2014 - Por: Redação

O sorriso aí em cima é a marca registrada de um dos maiores fotógrafos curitibanos da nova geração. Gus Benke é o queridinho das noivas, dos surfistas, das debutantes, dos músicos e de uma legião de amigos e seguidores que frequentam a sua Casa Cristal. Na raiz de tanto carinho, uma dor. A morte do pai, quando ele tinha apenas um ano e meio, deixou algumas lacunas. Como ele gosta de dizer, a carência e a falta de um irmão foram o enredo que a vida criou para que pudesse se reinventar. O garoto Gus passou a trilhar de alma em alma pedindo um pai, um irmão, um coração. Tanto pediu que recebeu. Aos cinco anos foi o cupido que uniu novamente sua mãe em casamento.

Um pai já tinha, mas os irmãos podiam esperar. Na ânsia de crescer e aparecer, Gus se tornou insuportável. Pichou muros, puxou cabelos, matou aulas, inventou o bullying milhares de vezes, até que um dia se deu conta de que teria que nascer de novo se quisesse ser feliz realmente.

Aproveitou um intercâmbio para a Austrália e se permitiu olhar os outros com amor. Como resultado, encantou-se pelas pessoas, pela vida e usou um curso de fotografia como instrumento para registrar seu próprio renascimento. O menino que precisava de atenção continuava por ali, mas agora fazia irmãos à velocidade da luz. Voltou para o Brasil com uma câmera na mão, dreads na cabeça e um entusiasmo pela vida que se refletia em cada trabalho que foi garimpado com talento e cara de pau. Fotografar com o coração lhe rendeu reconhecimento no mercado e grana para realizar alguns projetos pessoais no Brasil e em países como Índia, Alemanha, Inglaterra e Itália.

Metamorfose ambulante, apaixonou-se pela música e começa em março uma nova fase, como estudante em uma universidade em Floripa. Medo da mudança? É claro que não. “Se o seu propósito é bom, tudo vai conspirar para o sucesso”, declara com uma fé inabalável.

Neste bate-papo conosco, Gus abriu as portas da sua casa, tomou banho de mangueira e falou como se fala a um amigo. Lembrou que viver é exercitar
a jardinagem de semear o bem e descobrir em cada pessoa que encontra pelo caminho a centelha de um amor maior.

GUS _ 077

Você tem muitos amigos. Sempre foi assim?
Eu acredito que a vida cria alguns enredos para despertar alguns potenciais na vida da gente. Quando eu tinha um ano e meio meu pai morreu. Como eu não tive pai, nunca tive  irmãos e isso fez de mim uma pessoa muito aberta a conhecer novas pessoas.

Então seu carisma é fruto de sua carência?
Acho que sim. Eu cresci acreditando que não merecia atenção e, a partir disso, desenvolvi ferramentas para fazer amigos. Aprendi a ler muito cedo, decorei as capitais para receber atenção e de certa forma o carinho que não recebi do meu pai. Sempre tive muita necessidade de compartilhar
conhecimento e de ser aprovado por todos.

E sua adolescência, como foi?
Com 16 anos eu tinha uma energia masculina desequilibrada. Fui expulso do Anjo da Guarda e depois estudei no Positivo e Dom Bosco. Se perguntar para qualquer pessoa daquela época vai lembrar que eu era o cara mais babaca do
colégio. Eu tinha muita energia, mas era direcionada para o mal. Era minha maneira de receber atenção.

O que o fez mudar?
Certa vez um grande amigo chorou de tanto que tirei sarro dele. Isso mexeu comigo e acho que foi a matriz da mudança. Logo depois fui fazer intercâmbio na Austrália e foi uma excelente oportunidade para me recriar. Eu podia ser qualquer pessoa que eu quisesse porque não havia aquelas
pessoas que me conheciam. Lá eu conheci o budismo e gosto de dizer que aprendi princípios de jardinagem, de que se colhe o que se planta. Quando soube disso, decidi que não queria mais receber essa energia negativa.

Você mudou da água para o vinho?
Sim, minha espiritualidade não era profunda, mas entendi muito bem essa lei da causa e efeito e comecei a ver o resultado na prática. Lá eu passei a ser um cara que era amigo de todo mundo, é o que acontece um pouco aqui do Brasil. Foi impressionante como depois disso eu consegui enxergar uma beleza que não via por aqui. Lá eu passei a ver todo mundo bonito e percebi que era porque agora eu estava cultivando as pessoas dentro de mim.

GUS _ 011

E qual é o seu momento atual?
Quando eu descobri que esta questão de aceitação tinha um quê de ansiedade, percebi que não precisava agradar a todo mundo. Hoje a vida está me pedindo para eu aprender a dizer não. É um aprendizado muito legal colocar limites e estar confortável com a desaprovação.

Apesar da pouca idade, você tem feito várias mudanças na sua vida…
Esses movimentos de mudança nos pedem inteligência, flexibilidade e fé. De vez em quando a gente está em dúvida. Se você não está feliz, mude. O que a vida quer é que a gente esteja feliz, que esteja bem. E se teu propósito é ser feliz não tem como dar errado. Na pior das hipóteses você vai levar uns tombos, vai chorar, vai crescer.

Curitibanos precisam se abrir mais para as pessoas?

Eu sinto que a gente tenha que pegar uma crença que está dentro da gente, que nossos pais colocaram com todo amor e com a melhor das intenções, olhar para essa crença, dar um beijinho nela e mandar ela passear. Que é aquela crença de não fale com estranhos. Agora não precisamos mais
disso.

Como a fotografia entrou para sua vida?
Eu dou graças a Deus por ter começado sem pensar em ser fotógrafo. Eu estava curtindo a fotografava sem pensar no mercado, foi pura fluidez! A fotografava deslanchou porque eu passei a mostrar para todo mundo as fotos. Teve a ver com a carência, tipo “olhe o meu valor”. O meu primeiro trabalho paguei para trabalhar.

E hoje como é?
Hoje as pessoas me contratam por quem eu sou, pela minha maneira de fotografar. Tenho a liberdade de fazer do meu jeito, desde que esteja conectado com o momento e com a mensagem que devo passar. A fotografia vem de dentro. Essa é a chave da minha fotografia. Buscar estar à vontade
comigo mesmo quando estou fotografando para inspirar as pessoas a estarem à vontade com elas mesmas.

GUS _ 075

Você tem trabalhos autorais em lugares incríveis. Não se torna um pouco chato fotografar casamentos? 
Não, porque procuro manter sempre o interesse por descobrir o que é único naquilo que eu estou retratando. Chegar aberto, feliz em aprender alguma coisa com qualquer trabalho, sejam fotos na Índia ou num casamento, que aliás é um dos momentos mais importantes na vida de qualquer pessoa. Procuro o humano que está na essência de tudo.

Para você, o que é fotografar?
É servir à luz, compartilhar a beleza, que, como acredito, está nos olhos de quem vê. Todos somos fotógrafos, mas poucos estamos com uma câmera na mão.

Você é famoso por ser um fotógrafo que cobra caro, apesar de seu estilo “paz e amor”. Como se dá isso?
Fazer o trabalho com o coração não anula sua capacidade de ganhar dinheiro. Aliás, como eu trabalho com o coração e o meu coração é único, posso cobrar o valor que eu quiser no meu trabalho. E isso vale para todo mundo: para o médico, o advogado, o professor… O problema é que a gente acaba  associando o coração como algo bom e a mente como algo mal. Não! A dança entre a mente e o coração é que é linda. Eu realmente cobro caro porque quero trabalhar pouco e se a pessoa vê valor no meu trabalho, e pode, ela vai me pagar.

A ideia é curtir mais a vida?
Sim. Se eu ficar me dedicando tanto ao trabalho não consigo ter tempo livre, fazer música, cuidar da casa. Estou feliz porque consegui deletar 3G do meu celular para viver a vida real. Tenho procurado cuidar das minhas amizades e dedicar menos tempo dedicado à fotografia comercial. Tenho viajado mais, no ano passado, fiquei um mês em uma turnê em Natal tocando com alguns amigos.

O mundo está caminhando para essa simplicidade?
Hoje em dia o dinheiro está no centro de tudo, depois os humanos e só depois a natureza. Nesse modelo a gente explora completamente a natureza para depois ser explorado pelo dinheiro. O resultado de tudo isso está claro: todos estão correndo contra o tempo, sem saber onde está a felicidade. Caminhamos para um ponto crítico no qual não vamos ter nada mais a fazer se não nos voltarmos para o Ser Humano.

Já existem bons exemplos dessa nova economia?

Sim, um deles é o movimento que a Dove faz. Quando uma publicidade está a serviço da luz, do amor, valorizando pessoas reais, ela atinge muito mais. Estamos muito focados nessa coisa de se dar bem, de ganhar dinheiro e acabamos esquecendo qual deve ser a nossa real intenção neste mundo. O que afinal você gosta de fazer? Antes de ser um médico, você precisa ser um cuidador… Antes de ser fotógrafo, eu sou um mensageiro, um beija-flor, que compartilha a beleza que encontra pelo caminho.

E a preocupação com o futuro?
A fotografia paga minhas contas e tenho liberdade de tocar as minhas coisas. Agora, por exemplo, vou estudar música em Florianópolis e sei que logo vou conciliar a música com a fotografia. É natural, não tenho ansiedade nenhuma.
Minha maior preocupação é o que eu vou estar criando de novo. Minha vida me ensinou que compartilhando a gente recebe. Acho que vivemos de forma muito egoísta e nosso grande desafio hoje em dia é, em vez de perguntar o que o mundo tem para me oferecer, perguntar o que eu tenho a oferecer para o mundo.

GUS _ 005


Viver no digital

Loading...