O mundo de Luiza Possi

18 de fevereiro de 2016 - Por: Redação


Acostumada aos palcos desde sempre, Luiza teve um grande batismo na carreira artística. Ainda recém-nascida, na época em que frequentava os estúdios no colo da mãe (Zizi Possi), seu choro ficou registrado numa das gravações de Luiza, clássico de Tom Jobim, realizado há quase duas décadas. Precoce, a pequena cantarolou pela primeira vez em um programa de televisão aos três anos. Aos 17 gravou seu primeiro disco intitulado Eu Sou Assim. Na vida amorosa é discreta e namoradeira. A loira teve somente dois relacionamentos longos que somados resultaram em 10 anos de companheirismo. “Levei uma vida de casada dos 15 aos 24 anos e, quando terminei com o Pedro (Neschling) quis saber quem eu era”, revelou em uma entrevista.

Gente_Luiza Possi 4

Luiza é um encanto. Durante a entrevista respondeu sem rodeios sobre tudo. Apaixonada por música brasileira estudou piano, canto lírico e seguiu os passos da mãe. Embora ela goste sempre de deixar claro que trilhou seu caminho com as próprias pernas. Hoje, tornou-se uma das maiores cantoras de sua geração e da MPB. Foi jurada do programa Ídolos e assistente técnica do cantor Daniel no programa The Voice Brasil. Simpática e bem humorada, conversou sobre relacionamentos, amor, família e sucesso. Confira toda a sua autenticidade!

O que te inspira?

As relações entre as pessoas me inspiram. Nesse sentido eu sou bem canceriana. Eu gosto das coisas que estão ao meu redor e debaixo das minhas asas, sabe? Os meus cachorros, a minha casa. Shows também me inspiram.

Você tem uma preferência por compor ou cantar?

São questões diferentes. Cantar não é uma escolha, é um chamado. Eu não pude escolher, entende? Você não pode mudar o que você é. Já compor é vital. É como se eu fosse uma árvore e me aterrasse no chão, se eu não existisse não existiria tal música.

É um dom?

É um dom também, mas é um dom de ofício. E isso eu aprendi muito com o Dudu Falcão, que é compositor e meu parceiro. Você precisa encarar o momento de você com o seu violão, de você com seu instrumento. O momento em branco é para isso. Se eu depender só de inspiração eu não posso dizer que eu sou uma compositora. Eu posso dizer que eu faço música, mas compositora é de ofício.

Luiza, você já foi jurada dos Ídolos e também foi assistente técnica no The Voice. Como foi essa experiência?

São funções extremamente diferentes. No Ídolos foi muito mais difícil pelo esquema do programa. A gente recebia por dia cerca de 100, 110 pessoas, então a todo o momento você tinha que ficar se reinventando. Eu nunca me coloquei na posição de julgar, e sim de aconselhar, de estar do lado, de falar “Cara, talvez isso seja melhor”. E como é que você faz isso sem magoar e ofender? Tem muita gente que não vai para a música, vai para a fama.

Como assim?

As pessoas julgam que é tudo muito fácil. Vão atrás de uma ostentação que acha que esse mundo tem e que não tem. Até existe, mas depois que você rala muito. Ninguém imagina quantos nãos se fazem um sim. Ninguém sabe que às vezes a gente passa o maior sufoco para fazer um xixi atrás do palco. E o que eu via no Ídolos era muito essa busca pelo sucesso. Mas a minha posição era encaminhar e não julgar. Nem Deus julga, né? Ele deixa a gente fazer cada besteira…

Gente_Luiza Possi 2p

Como é a sua relação com a sua mãe? Você deu trabalho pra ela?

Eu acho que eu dou mais agora (risos). Eu dei trabalho na adolescência. Na infância eu era uma criança muito pensando no futuro, sabe? Eu me sentia de passagem ali por aquela infância. Foi exatamente  como o Lulu Santos canta naquela música que eu amo… “Quando eu era pequeno eu achava a vida chata…” e achava mesmo. Mas a nossa relação sempre foi muito legal, a gente sempre foi muito cúmplice. Eu sinto um orgulho imenso dela e hoje a gente tem uma relação emocionalmente próxima e fisicamente não tanto. A minha mãe, eu sempre falo isso, ela não é uma mãe de pequenas causas, ela não é aquela mãe “Oi filha, você quer que eu faça uma comidinha pra você?”. Definitivamente não. Ela é uma mãe de grandes causas. Se eu estiver em apuros eu posso estar em qualquer lugar do mundo que eu sei que ela vai interferir para me ajudar. Isso foi provado ao longo do tempo.

E na sua carreira. Ela participa?

Ela nunca interferiu. Até por saber quem eu era, o que eu queria e podia alcançar. Eu sempre trabalhei com o meu pai, mas disso quase ninguém sabe. Ele é meu grande mestre Jedi (risos). Esse é o meu primeiro disco independente. Eu precisava disso, sabe? Mas toda a hora eu ligo, peço conselhos… Eu comecei a cantar muito nova, com várias bandas pelos festivais e sarais, e nunca quis que a minha mãe fosse. Senão iria ficar aquela coisa “O disco que a Zizi fez e a filha cantou”, sabe? E não era essa a minha proposta. Minhas influências são outras.

Vi uma entrevista em que você fala que começou a amar a sua mãe aos 12 anos. Como foi isso?

Essa pergunta é ótima! Eu morava em um prédio no Rio e éramos vizinhas da minha avó. Na época meu pai era empresário da minha mãe, eles tocavam juntos, viajam muito e me deixavam na minha avó. A minha avó era a minha vida, minha paixão e meu lar. Até que a minha mãe se separa do meu pai, se muda comigo para São Paulo, me tira de perto da minha avó, em seguida o meu pai fica com câncer, quer dizer, por que mesmo que eu teria que gostar da minha mãe? (risos).

Foi uma fase bem difícil para você…

Eu não entendia esse movimento dela. Nessa época eu só via a minha mãe trabalhando, falando no telefone e tal, depois não a ouvia mais. Foi um movimento muito brusco o que a minha mãe fez e, ao mesmo tempo, foi uma pessoa de uma coragem imensa. Ela rompeu com a gravadora, com o marido, com o empresário, teve coragem de falar “Eu não quero mais esse tipo de música e vou cantar o que eu acredito”.  Eu não sabia os perregues que a gente estava enfrentando, eu tinha cinco anos. Até eu entender tudo isso que ela fez…Mas hoje eu tenho  o maior orgulho, maior honra de ter sido criada por essa mulher tão corajosa, tão brava no melhor sentido da palavra, mas eu só fui entender isso por volta dos 12 anos.

Gente_Luiza Possi 3

Muitas vezes não temos oportunidade para agradecer pessoas importantes na nossa vida. Quem foi especial pra você?

Meu pai. O meu pai é uma pessoa que eu agradeceria eternamente. Ele foi e é com certeza o meu maior fã e o cara que mais acreditou em mim piamente. O Nelsinho, que foi meu namorado, compôs comigo, fez mil projetos e me ajudou em vários momentos da minha vida. Minhas amigas que estão sempre comigo, eu tenho amizades de 20 e poucos anos. As pessoas que cuidam dos meus cachorros quando eu viajo. A Mara. Eu preciso agradecer a Mara, ela é o meu anjo da guarda vivo e personificado. A Mara trabalha na minha casa, cuida de mim e de tudo. Meu tio Zé (José Possi Neto) que é um pai que me adotou. A minha avó, mãe da minha mãe, que praticamente me criou quando a minha mãe se mudou comigo para São Paulo.

Nas suas últimas entrevistas você revelou que aprendeu a ficar sozinha. Como foi isso? Mulher solteira parece que sofre uma cobrança. Acontece com você também?

Claro que sim. E uma pressão interna também, sabe? Às vezes eu fico pensando “Caraca, todo mundo teve filho”. Tem uma pressão externa muito forte também. Eu prefiro sozinha do que mal acompanhada, mas eu prefiro bem acompanhada do que sozinha. Eu sinto falta da presença masculina na minha vida, porque só as amigas, às vezes, enche um pouco o saco, né? Eu fico revoltada quando escuto que os homens tem medo de mim. Esses dias eu estava conversando com um amigo meu e ele disse “Luiza, quase todas as namoradas dos meus amigos são ‘mulheres que ficam ali’”, que o cara fala “Fica quietinha que quando eu precisar de você eu aviso”, sabe? E eu não sou mulher de ficar ali. Eu tenho opinião, falo, gesticulo. E fica mais difícil encontrar um namorado quando você não é uma mulher que simplesmente fica ali.

Você sempre vem a Curitiba. Você gosta daqui? Qual é a sua relação com a cidade?

Eu gosto muito de Curitiba. Eu parei de fumar aqui e foi um marco na minha vida. Já faz cinco anos. Eu estava fazendo uma temporada na Caixa Cultural e eu lembro que eu passei uma semana inteira aqui e adorei. Foi um momento que eu estava praticando bastante o zen-budismo e Curitiba me ajudou muito. Eu gosto de cantar para quem se identifica comigo. Os semelhantes se atraem, isso é um fato. O público curitibano é aberto, mas ao mesmo tempo é contido, mas isso não significa que não está emocionado ou conectado com você. E para nós que fazemos um trabalho que não é só de entretenimento um público assim é essencial. Aqui eu posso cantar com certa calma, eu não fico incomodada com as pausas das músicas, com os solos, com o andamento de uma música mais lenta. Aqui você tem o espaço e o direito de apresentar o seu trabalho. Eu consigo entender isso e consigo ser entendida por vocês. Então essa troca, ao longo dos anos, foi ficando mais clara e mais nítida e, consequentemente mais frequente.

Matéria publicada na Revista VIVER 123.


Viver no digital

Loading...