Peso pesado

18 de dezembro de 2013 - Por: Redação

Com 45 anos de carreira, participação na equipe de urbanistas que transformou Curitiba em referência, projetos dos dois principais câmpus universitários da cidade, o arquiteto Manoel Coelho se dá ao luxo de disparar suas opiniões sobre tudo e sobre todos. No mês em que lança sua exposição no Museu Oscar Niemeyer, na qual apresenta alguns de seus principais projetos, ele fala à VIVER Curitiba sobre o planejamento urbano da cidade e os caminhos da profissão.

O senhor é de Florianópolis. Como acabou vindo para Curitiba e para a arquitetura?
Em 1962 o país estava numa euforia, numa situação inusitada com a construção de Brasília e a vinda da primeira fábrica da Volkswagen. Nomes como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa aparecendo. Eu vim para Curitiba para fazer engenharia, mas
essa euforia toda fez com que se criasse o curso de Arquitetura e começou a se discutir muito a cidade e o que se fazia na cidade. Aquilo chamou muito a minha atenção e acabei trilhando esse caminho.

Qual a missão do arquiteto?
O arquiteto é o profissional que organiza os espaços para que as pessoas exerçam suas funções. Isso em várias escalas. Este foi um exemplo que Curitiba deu, planejando desde uma lixeira até os parques, o transporte coletivo.

Quando se deu esse avanço? 

A partir de 1971 Curitiba começou a virar referência. Tive sorte de participar desde o começo na equipe do Jaime Lerner e foi algo muito forte, porque essa revolução urbanística atingiu todas as etapas da cidade e da vida da população. Ao mesmo tempo, foi pensado no sistema urbano, viário, de transporte, de lazer, de revitalização da cultura. Tudo isso junto. Pouquíssimas cidades no mundo fizeram isso ao mesmo tempo.

A impressão é de que o planejamento urbano não acompanhou o crescimento da cidade nos últimos anos. 

Sim, em minha opinião começou a parar no momento em que foi ocupada por administradores que não pensaram na cidade para valer, como meta, como foi no começo. O que sempre digo que ainda salva é que Curitiba nesse tempo avançou muito.

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Então tinha uma gordurinha para queimar?
Tinha e ainda tem, mas essa gordura está acabando mais rápido do que eu imaginava. Isso me assusta muito. Até por conta desta última gestão, que ainda não disse a que veio. Gosto do Fruet, acho um cara legal e sempre votei nele. Trouxeram o Sergio Pires para o Ippuc, um cara bom, mas essas coisas não são fáceis de recuperar. As coisas estão desarticuladas, está tudo sucateado. E o pior, não olham para trás, para gente que tem experiência. Assim como eu, existem vários arquitetos que poderiam contribuir muito para a cidade e estão jogados às traças.

Todos esses comentários não podem parecer dor de cotovelo? Afinal, o senhor participou de uma festa por bastante tempo e agora não é mais convidado…
Acredito que não. Felizmente meu trabalho não se ateve só à política. Eu trabalho para a Universidade Católica desde 1974, que é mais ou menos quando essa mudança em Curitiba aconteceu. Há 15 anos faço todos os projetos para a Universidade Positivo, que na verdade é uma cidade que eu desenhei, que conta com 20 mil pessoas entre professores, alunos e funcionários. E mil outras  coisas. Dor de cotovelo não existe porque eu tenho trabalho e também tive um reconhecimento por tudo o que fiz para a cidade. Não só eu, mas todo esse pessoal que fez parte da história do urbanismo em Curitiba.

O que então incomoda tanto?
O que é triste e o que irrita e que talvez faça a gente demonstrar essa indignação é de ver todo esse trabalho sendo jogado fora aos poucos. E estão mexendo na qualidade de vida de 1,8 milhão de pessoas. Qual sua visão sobre as construções em Curitiba? De uma maneira geral é muito ruim, porque está cada vez mais dominada pela especulação imobiliária. Os projetos são repetidos, só se muda uma faixinha, uma coisa, mas o projeto é o mesmo. Tudo bem se isso baixasse o custo
do metro quadrado, mas não, isso apenas aumenta a margem de lucro dos construtores, que continuam fazendo verdadeiras aberrações, sem pensar no conforto da pessoa, basta ver o tamanho das habitações, que cada vez diminuem mais.

O senhor é contra esse avanço imobiliário?
Essa coisa é mais séria do que a gente pensa. Um exemplo é o Ecoville, que foi feito na época do (Rafael) Greca. A especulação imobiliária entupiu tanto as estruturais – Av. Silva Jardim, Av. Visconde de Guarapuava – que foi necessário fazer um novo polo. Eles mesmos viram a bobagem que fizeram e forçaram a barra para faturar em outro lugar. Quer dizer, bobagem para a cidade porque eles ganharam muito dinheiro e para eles estava ótimo. Foi então que criaram o Ecoville, com algumas características boas,  com lotes maiores, para evitar os paredões que foram criados.

Mas e hoje, cadê os bosques do Ecoville?

Os poucos terrenos que existem já estão a espera de novos empreendimentos.

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Uma crítica ao seu trabalho é com relação aos câmpus da PUC e do Positivo terem um projeto parecido. Procede? 

Não, aí deve ser o cotovelo falando. Basta ir nas duas e perceber que a diferença é brutal. O que se mantém é o meu estilo, uma linguagem. Acho que principalmente na PUC o pessoal ficou com ciúmes. Mas não há nada parecido não.

Qual a obra que lhe dá mais alegria?
Quase sempre uma obra pequena é mais significativa. Gosto muito da capela na Universidade Positivo, que já me deu muita alegria, ganhou prêmios em muitos lugares do mundo. E em Curitiba eu posso dizer que contribuí bastante com a identidade visual da cidade.

Qual sua opinião sobre os jovens arquitetos?
De um modo geral, temos bons  arquitetos, mas talvez pela quantidade de gente que é formada o nível acaba baixando. Esse glamour em torno da profissão atrapalha um pouco, porque é uma visão falsa. Para ter sucesso, é preciso batalhar, se atualizar e não ser imediatista.

Uma grande reclamação ao trabalho dos arquitetos é a busca pela comissão. O que o senhor acha disso?
Acho isso uma aberração. Sempre se fez esse tipo de coisa. É a tal da RT, a reserva técnica, para os arquitetos especificarem os materiais. Sou fundamentalmente contra e não utilizo isso no meu escritório, quando uma empresa
me oferece eu falo para dar o desconto para o cliente. Podese parecer romântico, mas não tenho essa cara de pau. E isso há um tempo era feito de uma maneira subterrânea. Agora é explícito.

Como assim?

Agora há entidades de decoração que fazem uma pontuação para os arquitetos que mais indicam produtos, tudo explícito. Vi esses dias no jornal que teve uma premiação de uma entidade dessa em que o mesmo escritório ganhou cinco carros. Cinco carros! Isso é falta de ética e um monte de coisa!

Quem está pagando é o cliente?
Mas é lógico. E os clientes, burros, não percebem isso. Às vezes os arquitetos falam que o projeto é de graça, mas aí vão botar um tapete e especificam não o melhor produto para o cliente, mas o que lhe dá mais “reserva técnica”. Eu fico triste e sei que nosso conselho vai adotar medidas com relação à ética, mas é tudo muito complicado. Como o nosso país é corrupto,  já está tudo corrompido.

Nesses 45 anos, o que lhe dá mais orgulho?
Tenho orgulho de ter mantido os princípios que vêm lá da faculdade, apesar de todas as dificuldades que passei. Eu tive grandes mestres e sempre digo que apenas 50% da formação de um profissional vem da faculdade, o resto é tarefa
de cada um correr atrás. Recebo estudantes e e-mails do Brasil inteiro querendo saber mais sobre o meu trabalho e, quando cai a ficha de quanto isso é difícil, me dá um prazerzinho, um orgulhozinho, sabe, com toda a humildade.

EXPOSIÇÃO 45 ANOS
Fica aberta no MON até 6 de abril de 2014 a exposição que mostra a produção de 45 anos do Escritório MCA Manoel Coelho Arquitetura/Design e apresenta os principais projetos desenvolvidos para o espaço urbano, edificações, mobiliário urbano e identidade visual.

 


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