Sobre Viver

Ela venceu o câncer de mama e durante o tratamento escreveu cartas que viraram livro

15 de outubro de 2015 - Por: Rubens Binder

Fotos: Mariana Barcellos

Fotos: Mariana Barcellos

Quando descobriu que estava com câncer em estágio avançado ela se viu em um filme. Não como espectadora, mas como protagonista. E a vida que a professora universitária Adriana Zadrozny conhecia deixou de existir em um estalar de dedos. Ela estava amamentando seu filho de apenas 10 meses e o adolescente de 13 anos teve que aprender a conviver com o sofrimento da mãe. Para piorar, Adriana estava sozinha, pois após 20 anos de casamento enfrentou o trauma de uma separação.

Assim, a dualidade da vida manifestou-se de uma maneira chocante. Fraca pelo tratamento, Adriana lembra que mesmo com crises de vômito tinha que tirar forças para cuidar de uma criança com uma fonte inesgotável de energia. Os cuidados a absorviam, mas traziam uma grande paz porque ainda assim conseguia fazer tudo aquilo. “Eu precisava fazer o máximo. Queria que, ainda que inconscientemente, meus filhos tivessem registros de terem sido amados e cuidados enquanto eu pude. Minha mucosa da boca estava tão ferida que por vezes não conseguia falar com meu bebê, nem mesmo beijá-lo. Isso era muito, muito sofrido”.

Ao longo de todo esse processo, Adriana escreveu inúmeros relatos a respeito do que acontecia em sua vida que agora, cinco anos depois de enfrentar a doença, ela transforma em um livro. “Sobre Viver” é um relato de força e paixão pela vida e acaba de ser lançado.

Entrevista_Adriana

QUANDO VOCÊ DESCOBRIU QUE ESTAVA COM CÂNCER?

Foi em 2010, era um carcinoma ‘ductal infiltrativo’ em estágio avançado, com quase dez centímetros.  A mama densa da gravidez e da lactação impediram que eu observasse o crescimento. Devo ter apalpado o nódulo inúmeras vezes achando que era glandular ou leite ingurgitado. Quando meu filho começou a mamar menos, percebi que as duas mamas estavam muito diferentes e só então achei que algo pudesse estar errado. Infelizmente estava.

VOCÊ LEMBRA O QUE PASSOU PELA SUA CABEÇA? 

No primeiro momento, parece um filme. Deve ser algum mecanismo nervoso para que a gente não enlouqueça, porque a vida que conhecemos deixa de existir. Lembro-me que voltei para casa pensando em como o bebê enfrentaria o fato de não mais mamar no peito. Era uma preocupação imensa e em minhas orações só pedia tempo.

SENTIU RAIVA OU ÓDIO, POR EXEMPLO, QUANDO DESCOBRIU A DOENÇA?

Não. Nunca. Desde o começo parei para pensar no “para que”. O que a vida queria que eu aprendesse? O que eu deveria enxergar? Hoje, sei que estava no caminho certo de minha intuição. Era um aprendizado mesmo e eu o acolhi.

VOCÊ TEVE QUE RETIRAR A MAMA. COMO TRABALHOU COM ESTA QUESTÃO?

Fiz mastectomia total da mama direita, seguida de reconstrução. Mas isso nunca teve importância para mim. Era a minha última preocupação. Lembro-me dos médicos insistindo na questão de uma boa prótese e eu só pensando que aquilo tudo não tinha importância. Hoje, fico feliz que eles tenham insistido e feito um trabalho lindo.

COMO VOCÊ ENCARA SEU CORPO APÓS A RETIRADA DA MAMA?

Muitas de minhas cicatrizes hoje são cobertas por tatuagens, inclusive as da própria mastectomia. Não para escondê-las, jamais! Morro de orgulho delas. Para celebrá-las. Elas são a prova de um corpo que usou de todos os recursos possíveis para se manter vivo a ponto de permitir a cicatrização de feridas do corpo e da alma.

E A ROTINA DO TRATAMENTO?

A dualidade da vida se manifestou. Estava fraca, tendo náuseas e com a mucosa da boca tão ferida que por vezes não conseguia falar e nem beijar o meu bebê. Isso era muito, muito sofrido. Também tinha muita insônia e me sentia muito cansada durante o dia. E uma criança com um ano de idade é fonte inesgotável de energia. Por outro lado, esses cuidados me absorviam, me enterneciam, traziam-me uma grande paz porque eu ainda conseguia fazer tudo aquilo. E eu precisava fazer o máximo. Queria que, ainda que inconscientemente, ele tivesse registros de ter sido amado e cuidado enquanto eu pude.

VOCÊ TEVE QUE ENCARAR SOZINHA ESTA REALIDADE. A PARCERIA DE 20 ANOS ACABOU EM DECORRÊNCIA DA DOENÇA?

Grandes traumas são sempre divisores de águas. Não há como se manter uma relação nos mesmos moldes. Tenho percebido dois fenômenos bem distintos em casos como o meu: ou o casal se une e vive partilhando do mesmo fôlego, ou há uma ruptura. A vida que havia deixou de existir, pois, de repente, éramos novas pessoas, buscando respostas diferentes e enxergando a vida um sem o outro. Não há culpados. Acontece com muita frequência e não se trata de algo inédito ou digno de maiores dramas.

VOCÊ ESTÁ LANÇANDO UM LIVRO SOBRE A SUA HISTÓRIA. O QUE ESPERA COM ESTE TRABALHO?

O livro é uma coletânea de textos que funcionavam como um “diário”. Neles, eu contava como era a vida de uma paciente tratando um câncer de mama, que eram enviados à família e aos amigos mais chegados, que assim sabiam por mim o que estava acontecendo. Porém, em pouco tempo os textos ficaram “famosos” e eu passei a ter centenas de destinatários. O apelo do livro nasceu daí. Hoje, cinco anos depois e após contar minha história a centenas de mulheres que me procuraram em busca de força e conselhos, eu pensei: e por que não? Assim nasceu o ‘Sobre Viver’ uma obra que fala de alegria, de fé e esperança.

VOCÊ QUERIA QUE ESSAS CARTAS CHEGASSEM AOS SEUS FILHOS?

Sempre tive horror dos comentários equivocados, das falsas informações. No entanto, havia um pedido expresso de que, caso eu não sobrevivesse, um dia fossem entregues aos meninos, para que eles conhecessem a história toda por mim e não por informações desencontradas.

QUE TIPO DE MENSAGENS VOCÊ ESCREVIA PARA ELES?

Basicamente, minhas impressões sobre a vida e sobre viver uma doença que traz consigo uma sentença de morte. Narrava meus dias e meu imenso amor. Minha fé de que podia dar certo. Meus planos futuros. E do quanto eu tinha medo de partir deixando os dois.

Entrevista_Adriana2

VOCÊ PENSAVA NA REAÇÃO DE SEUS FILHOS QUANDO LESSEM AS MENSAGENS?

Não. Nunca pensei. Evitava imaginar que eles pudessem um dia ler aquilo. Seria sofrimento demais e eu evitava alimentar o sofrimento. Não visualizava um tempo em que eu não estivesse com eles. Não permitia ver a minha vida sem mim. Era um exercício de distanciamento e foi importante. Apesar de saber da possibilidade, eu escrevia sobre o tempo presente e eu estava nele, inteira e cheia de amor pelos meus filhos. Esse amor foi a minha cura. Por outro lado, hoje vejo que, caso tivesse sido assim, eles estariam em paz: ali estava uma mãe de bem com a vida, com a sua situação, lutando intensa e verdadeiramente para ficar com eles, mas cheia de fé no cumprimento de seu destino e desejosa de fazer sua história valer a pena. Acho que eles teriam orgulho de mim.

QUAL A MENSAGEM QUE GOSTARIA DE DEIXAR PARA AS LEITORAS DA REVISTA.

Não é fácil. Isso tem de ser dito. Dói, amedronta, sufoca. Mas é algo que deve ser vivido com a esperança acesa, com o peito cheio de fé e de alegria, porque há aprendizado e beleza no amadurecimento. Há a falsa impressão de que somos invulneráveis quando saudáveis. E “meio vivos” quando gravemente doentes. A vida, no entanto, não é assim, pois não precisamos de um câncer para ir embora. Não temos certeza de coisa alguma quando saímos de casa pela manhã e assim o câncer não precisa ser, necessariamente, nossa sentença, embora ainda seja a mais assustadora das doenças. Mas há caminhos e precisamos estar abertos, encontrá-los. Viver cada dia, um de cada vez. Ao nos curar, rever a vida e as escolhas. Mas, se assim não for, que possamos partir com a alma leve e com uma história bonita para contar. E você não precisa de um câncer para isso.


Viver no digital

Loading...